Atchim! e ai! – gripe e sensibilidade

Atchim! Ai, ai...

Atchim! Ai, ai…

Olá, amigos! Depois de mais um pequeno período de ausência, motivado em grande parte por uma gripe que me deixou “derrubado” – e da minha ainda presente (e persistente) fadiga social –, retomo hoje as atividades no blog, mais uma vez me desculpando pelo sumiço.

Já que falei na dita cuja da gripe, achei bastante propício usá-la como tema para iniciar o post de hoje. É fato que estamos todos suscetíveis a ficarmos gripados, especialmente nesses dias em que o friozinho – ou a chuva, minha eterna arqui-inimiga – aumenta e quando o inverno se aproxima. E aí, não há o que fazer; quando nos damos conta, já estamos sentindo aquele incômodo na garganta, a cabeça começa a doer e, pouco a pouco, o nosso corpo se torna dolorido como se tivéssemos acabado de levar uma bela surra. Depois, o de sempre: febre, tosse, nariz escorrendo e aquela coisarada toda que só de lembrar a gente já começa a se sentir mal.

A primeira coisa que fazemos quando surgem os sintomas é procurar por remédios. Aí geralmente se ouve a sugestão de parentes e amigos: “toma esse que é bom”; “faz um chazinho de alho com limão, mel, azeitona e pimenta-do-reino que melhora rapidinho”; “se você tomar esses 52 comprimidos diariamente a gripe passa e você nunca mais pega”; e por aí vai. Não sei o que vocês acham desses conselhos, e é provável que até mesmo os recomendem. Mas no espectro do autismo, como sempre, as coisas não são necessariamente assim tão simples.

Antes de chegar nos remédios, vou falar sobre os sintomas, agora na perspectiva autista. É claro que gripe derruba qualquer um, autista ou neurotípico, e que os sintomas são um incômodo para todo mundo. Ninguém em sã consciência gosta de ficar doente – e mesmo que a doença seja uma boa desculpa para, por exemplo, faltar o trabalho, o incômodo torturante será o mesmo. Mas nas experiências mais recentes que tive com a dita cuja, incluindo esta última, percebi algo curioso em mim.

Como vocês sabem, as pessoas no espectro do autismo geralmente têm uma sensibilidade grande, em todos os aspectos – sensibilidade auditiva, sensibilidade visual, sensibilidade tátil. É importante dizer que isso varia de pessoa para pessoa, mas é algo quase sempre presente, em maior ou menor grau. Comigo não é diferente, e o fato curioso que notei enquanto estive gripado foi que essa sensibilidade se ampliou. Era como se eu tivesse me tornado ainda mais sensível a tudo – a ponto de a luz das lâmpadas, amarelas ou brancas, fazer os olhos arderem o tempo todo, mesmo que não estivesse olhando na direção delas, e até mesmo de a simples fricção das roupas no corpo fazer minha pele doer como se estivesse sendo arranhada por unhas pontiagudas. Não sei se as pessoas que não estão no espectro sentem o mesmo, e por sinal fiquei curioso para saber (se alguém quiser falar sobre nos comentários, fique à vontade). Se sentirem, saibam que é mais ou menos assim que um autista sente algumas coisas mesmo quando não está com gripe.

A sensibilidade, por si só, é algo um tanto quanto incômodo – provavelmente piorado pela gripe –, mas com o passar dos anos acabamos nos acostumando e ao menos conseguindo relevar, já que é uma coisa que não se resolve com terapia ou remédios (pelo menos não que eu saiba!). Posso dizer que aprendi a evitar certas coisas, ou, se inevitável, tento me focar em algo bom, que faça com que eu me sinta melhor. Por exemplo, a sala em que trabalho tem lâmpadas brancas, fluorescentes, que costumam me provocar um leve incômodo nos olhos. Assim sendo, tento não prestar muita atenção nisso, e penso em outras coisas – no trabalho, na hora de ir embora ou em um livro de que gostei – para desviar minha mente da sensação ruim que a luz está me causando. Se eu parar e prestar atenção no incômodo, pronto: vai ser muito mais difícil aguentar.

Outro exemplo bem marcante são os toques de outras pessoas. Demorei a me acostumar com eles, e acho que ainda não estou totalmente acostumado. Quando era pequeno, se as pessoas me tocavam de surpresa ou muito rápido, sem que eu tivesse tempo para processar, eu sentia como se estivesse levando um tremendo de um choque. Nunca me esqueço de quando, na então pré-escola, um colega de turma resvalou seu braço sem querer na minha barriga. O choque foi tão grande que chegou a doer, quase como se eu tivesse sido esmurrado – claro que não era o caso. Além disso, toques em alguns pontos em especial sempre me causaram desconforto ainda maior. Um deles são minhas unhas. E minha mãe que o diga o quanto era penoso conseguir cortá-las.

Por isso, não tem jeito: com gripe ou sem gripe, sensibilidade é algo com que o autista deve aprender a conviver. E é importante que pais, familiares e professores saibam que não se trata de birra ou “frescura”. Também não é falta de educação: se um dia me encontrar pessoalmente com vocês e evitar que toquem minhas unhas e meus pulsos, não vai ser por mal. É apenas porque a sensação que vem disso, para mim, é insuportavelmente ruim!

Ah, já ia me esquecendo dos remédios. Para mim não é simples atender àquelas sugestões de amigos e parentes porque: 1) não beberia uma mistureba dessas nem se me pagassem! Para mim, alho é salgado, mel é doce; e na minha concepção, não importa o que diga a culinária contemporânea, salgado e doce não se misturam. Gosto das duas coisas, mas separadas e em seus devidos lugares, não num chá com um gosto horrendo; 2) não tomo comprimidos, de jeito nenhum (a menos que possa mastigá-los ou dissolvê-los em água). Tenho pavor a engolir aquelas coisas inteiras, e não adianta, não consigo fazer isso. Se me entalam na garganta, acabo tendo um troço. Assim, só me resta apelar para os xaropes, vitamina C e soluções líquidas – elas existem, e não sei por que motivos os médicos (e parentes e família também) nunca as receitam; garanto que funcionam tão bem quanto os ditos comprimidos. Além disso, só muito líquido e o repouso que os médicos exigem, mas também não dão. Ou estou muito errado em pensar que um único dia de atestado não é o bastante para se recuperar de uma gripe forte?

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Uma cachoeira de sensações estranhas

MP900181805Balançar-se para cá e para lá geralmente é considerada uma das características mais marcantes das pessoas no espectro do autismo. Isso acontece, segundo os estudiosos, porque se trata de uma maneira de o autista se sentir equilibrado após uma série de estímulos externos pelo qual ele tenha passado e que o acabam sobrecarregando. Desse modo, balançar o corpo seria quase como um meio para “filtrar” esses estímulos e assimilá-los melhor. Se é realmente este o propósito de se balançar, não sei dizer, embora faça bastante sentido.

O fato é que não me recordo de alguma situação em minha vida em que essa característica tenha sido destacada, ou pelo menos mencionada por outra pessoa. Até cheguei a fazer isso, admito, mas apenas em momentos específicos. É como se não funcionasse tanto para mim quanto funciona para os outros. É possível que eu tenha encontrado outras formas de me sentir melhor depois de ter sido “sobrecarregado” – e hoje que me entendo melhor acredito piamente nisso. Mas isso não quer dizer que eu não tivesse outras manifestações daquilo que chamam de “conduta motora repetitiva” [se é que balançar o corpo se enquadra nessa categoria. Se não for o caso, relevem. Sou (quase) leigo no assunto; só sei do que vivo].

Como acontece com qualquer criança, autista ou não, algumas situações faziam com que eu me sentisse feliz, triste, com medo, confuso, desconfiado, empolgado, etc. E isso tudo, geralmente, vinha em forma de uma enxurrada de sensações com as quais eu não sabia ou não conseguia lidar, pelo fato de que não conseguiria definir e entender o que eu estava sentindo. Isso, por sua vez, talvez ocorresse porque eu não era capaz de identificar estes mesmos sentimentos nas pessoas ao meu redor. Eu não podia perceber o que elas sentiam somente por meio das suas expressões faciais. Foi assim por muito tempo e até hoje, imagino, tenho certa dificuldade. Dessa forma, ao não ser capaz de “ler” e entender os sentimentos alheios, eu não tinha quaisquer referências para compreender os meus próprios.

As sensações desconhecidas, fossem boas ou ruins, me provocavam reações nem um pouco comuns ao que podia ser considerado “normal” pelas pessoas. Assim, quando ficava feliz ou satisfeito – ganhar um presente, saber que finalmente iria a um lugar que desejava ir, comer algo que estava com vontade –, minha reação era, basicamente, bater palmas, bater as mãos nos joelhos ou esfregá-las nas pernas e depois bater palmas outra vez, repetindo isso inúmeras vezes até que houvesse alguma interferência. Era algo espontâneo, mais forte que eu; quando me dava conta, já estava fazendo isso. Entretanto, para as pessoas, lógico, se tratava de algo muito esquisito. Na verdade, até hoje não sei o que exatamente elas pensavam sobre esses meus gestos. Mas sei, e muito bem, o que elas faziam quanto a isso. Na família, principalmente, costumavam me imitar ou me lembrar disso quase sempre. Na escola, não lembro de ter acontecido com tanta frequência, mas me recordo de alguns colegas terem perguntado vez ou outra por que eu fazia aquilo. Por um ou por outro motivo, por volta dos 10, 11 anos de idade comecei a perceber que aqueles gestos eram considerados estranhos pelos demais. E assim, como foi com várias outras coisas, passei a escondê-los ou, quando não era possível, disfarçá-los o máximo que pudesse. Não foi fácil, mas com o tempo fui me adaptando, até chegar ao ponto de no máximo esfregar as mãos nos joelhos, num gesto tão discreto que quase sempre passava despercebido (embora dentro de casa, quando estava sozinho, eu me liberasse do peso de ter que me controlar).

Quando estava nervoso ou ansioso os alvos eram minhas mãos. Uma se esfregava à outra, depois se contorciam para lá e para cá, a esquerda apertando a direita com força e vice-versa. Com isso, no entanto, ninguém nunca implicou, pelo menos não o suficiente para fazer com que eu tivesse que começar a disfarçar. Se as pessoas não percebiam ou simplesmente não julgavam relevante o bastante para comentar sobre, já não sei dizer.

Por fim, a reação mais problemática de todas: a provocada por minha sensação de tristeza, medo ou irritação. Sobre essa nunca houve qualquer comentário ou piada. O motivo é simples: eu jamais fazia isso na frente das pessoas, me limitando a explodir em casa, no máximo (e ainda assim nem sempre) diante da minha mãe. Basicamente, eu precisava me autoagredir, da maneira que fosse, o que era às vezes — aí sim — acompanhado do típico balançar o corpo. Era beliscão no braço, na barriga, nas pernas, esfregão nos braços como se quisesse arrancar toda a pele deles e, eventualmente, tapas (cuja intensidade dependia do que eu estava sentindo) pelo corpo todo. Por sorte nunca cheguei a me machucar de maneira grave. Mas é um instinto com o qual ainda tenho de lidar algumas vezes.

Imagino que este último caso esteja relacionado ao que chamam, em inglês, de meltdown — não sei como seria o termo em português; talvez ‘crise’, como sugerido pela minha psicóloga. Essas reações violentas vinham, quase sempre, como resposta a algo que eu havia vivenciado e que, no caso, tinha feito me sentir mal: uma quebra inesperada de rotina, uma frustração por algo que eu esperava muito não ter acontecido, uma situação qualquer na escola. Porém, independente de onde fosse o ocorrido, minhas ‘crises’ só aconteciam em casa. Se algo desagradável acontecia na escola, eu me aguentava até chegar em casa, e lá explodia. Não sei explicar a razão disso, mas talvez fosse porque em casa me sentia seguro o bastante — e longe da vista de estranhos — para fazê-lo.

Ainda aproveitando o tema, alguns pais me perguntaram o que eu fazia quando sentia que ia ter uma ‘crise’. A resposta pode parecer simplista demais, mas posso dizer que funcionava na maioria das vezes. Foi algo que acabei descobrindo sozinho, embora com alguma influência da minha mãe, imagino. No caso, quando começava a me sentir mal ou “desorganizado“, procurava algo que me agradasse — geralmente relacionado a um dos meus interesses específicos. Assim, ia aos poucos me sentindo melhor, aquietando aquelas sensações todas e, consequentemente, voltando a um emocional mais estável. Depois de algum tempo, o simples fato de tentar pensar sobre algum dos meus assuntos preferidos já era suficiente para me deixar bem (tanto que mantenho a prática até hoje). Fica, portanto, a dica; por mais que ela não seja eficiente em casos extremos, vale a pena tentar!