Atchim! e ai! – gripe e sensibilidade

Atchim! Ai, ai...

Atchim! Ai, ai…

Olá, amigos! Depois de mais um pequeno período de ausência, motivado em grande parte por uma gripe que me deixou “derrubado” – e da minha ainda presente (e persistente) fadiga social –, retomo hoje as atividades no blog, mais uma vez me desculpando pelo sumiço.

Já que falei na dita cuja da gripe, achei bastante propício usá-la como tema para iniciar o post de hoje. É fato que estamos todos suscetíveis a ficarmos gripados, especialmente nesses dias em que o friozinho – ou a chuva, minha eterna arqui-inimiga – aumenta e quando o inverno se aproxima. E aí, não há o que fazer; quando nos damos conta, já estamos sentindo aquele incômodo na garganta, a cabeça começa a doer e, pouco a pouco, o nosso corpo se torna dolorido como se tivéssemos acabado de levar uma bela surra. Depois, o de sempre: febre, tosse, nariz escorrendo e aquela coisarada toda que só de lembrar a gente já começa a se sentir mal.

A primeira coisa que fazemos quando surgem os sintomas é procurar por remédios. Aí geralmente se ouve a sugestão de parentes e amigos: “toma esse que é bom”; “faz um chazinho de alho com limão, mel, azeitona e pimenta-do-reino que melhora rapidinho”; “se você tomar esses 52 comprimidos diariamente a gripe passa e você nunca mais pega”; e por aí vai. Não sei o que vocês acham desses conselhos, e é provável que até mesmo os recomendem. Mas no espectro do autismo, como sempre, as coisas não são necessariamente assim tão simples.

Antes de chegar nos remédios, vou falar sobre os sintomas, agora na perspectiva autista. É claro que gripe derruba qualquer um, autista ou neurotípico, e que os sintomas são um incômodo para todo mundo. Ninguém em sã consciência gosta de ficar doente – e mesmo que a doença seja uma boa desculpa para, por exemplo, faltar o trabalho, o incômodo torturante será o mesmo. Mas nas experiências mais recentes que tive com a dita cuja, incluindo esta última, percebi algo curioso em mim.

Como vocês sabem, as pessoas no espectro do autismo geralmente têm uma sensibilidade grande, em todos os aspectos – sensibilidade auditiva, sensibilidade visual, sensibilidade tátil. É importante dizer que isso varia de pessoa para pessoa, mas é algo quase sempre presente, em maior ou menor grau. Comigo não é diferente, e o fato curioso que notei enquanto estive gripado foi que essa sensibilidade se ampliou. Era como se eu tivesse me tornado ainda mais sensível a tudo – a ponto de a luz das lâmpadas, amarelas ou brancas, fazer os olhos arderem o tempo todo, mesmo que não estivesse olhando na direção delas, e até mesmo de a simples fricção das roupas no corpo fazer minha pele doer como se estivesse sendo arranhada por unhas pontiagudas. Não sei se as pessoas que não estão no espectro sentem o mesmo, e por sinal fiquei curioso para saber (se alguém quiser falar sobre nos comentários, fique à vontade). Se sentirem, saibam que é mais ou menos assim que um autista sente algumas coisas mesmo quando não está com gripe.

A sensibilidade, por si só, é algo um tanto quanto incômodo – provavelmente piorado pela gripe –, mas com o passar dos anos acabamos nos acostumando e ao menos conseguindo relevar, já que é uma coisa que não se resolve com terapia ou remédios (pelo menos não que eu saiba!). Posso dizer que aprendi a evitar certas coisas, ou, se inevitável, tento me focar em algo bom, que faça com que eu me sinta melhor. Por exemplo, a sala em que trabalho tem lâmpadas brancas, fluorescentes, que costumam me provocar um leve incômodo nos olhos. Assim sendo, tento não prestar muita atenção nisso, e penso em outras coisas – no trabalho, na hora de ir embora ou em um livro de que gostei – para desviar minha mente da sensação ruim que a luz está me causando. Se eu parar e prestar atenção no incômodo, pronto: vai ser muito mais difícil aguentar.

Outro exemplo bem marcante são os toques de outras pessoas. Demorei a me acostumar com eles, e acho que ainda não estou totalmente acostumado. Quando era pequeno, se as pessoas me tocavam de surpresa ou muito rápido, sem que eu tivesse tempo para processar, eu sentia como se estivesse levando um tremendo de um choque. Nunca me esqueço de quando, na então pré-escola, um colega de turma resvalou seu braço sem querer na minha barriga. O choque foi tão grande que chegou a doer, quase como se eu tivesse sido esmurrado – claro que não era o caso. Além disso, toques em alguns pontos em especial sempre me causaram desconforto ainda maior. Um deles são minhas unhas. E minha mãe que o diga o quanto era penoso conseguir cortá-las.

Por isso, não tem jeito: com gripe ou sem gripe, sensibilidade é algo com que o autista deve aprender a conviver. E é importante que pais, familiares e professores saibam que não se trata de birra ou “frescura”. Também não é falta de educação: se um dia me encontrar pessoalmente com vocês e evitar que toquem minhas unhas e meus pulsos, não vai ser por mal. É apenas porque a sensação que vem disso, para mim, é insuportavelmente ruim!

Ah, já ia me esquecendo dos remédios. Para mim não é simples atender àquelas sugestões de amigos e parentes porque: 1) não beberia uma mistureba dessas nem se me pagassem! Para mim, alho é salgado, mel é doce; e na minha concepção, não importa o que diga a culinária contemporânea, salgado e doce não se misturam. Gosto das duas coisas, mas separadas e em seus devidos lugares, não num chá com um gosto horrendo; 2) não tomo comprimidos, de jeito nenhum (a menos que possa mastigá-los ou dissolvê-los em água). Tenho pavor a engolir aquelas coisas inteiras, e não adianta, não consigo fazer isso. Se me entalam na garganta, acabo tendo um troço. Assim, só me resta apelar para os xaropes, vitamina C e soluções líquidas – elas existem, e não sei por que motivos os médicos (e parentes e família também) nunca as receitam; garanto que funcionam tão bem quanto os ditos comprimidos. Além disso, só muito líquido e o repouso que os médicos exigem, mas também não dão. Ou estou muito errado em pensar que um único dia de atestado não é o bastante para se recuperar de uma gripe forte?

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Não chove chuva, não chove e pare já!

Minha pior inimiga, dona chuva

Minha pior inimiga, dona chuva

Não posso dizer que estou muito contente com as coisas no Brasil (se tivesse condições, acho que já teria me mandado daqui). Mas digo, sem sombra de dúvida, que amo a cidade em que vivo e que dificilmente a trocaria por outra (neste país). Minha quase sempre cinzenta Curitiba, nacionalmente conhecida pelo clima fechado que, teoricamente, reflete no humor de seus habitantes, é (ou devo dizer “já foi”?) um lugar razoavelmente bom de se viver, apesar dos pesares. Entretanto, Curitiba, em decorrência da sempiterna cinzentice, me ensinou a detestar algo que, em geral, as pessoas costumam amar, ignorar ou ao menos relevar.

Chuva. Ah, chuva! Que foi que eu lhe fiz para ser tão perseguido? Ao contrário do que parece, meus amigos, não estou fazendo drama. Ao final deste texto, tenho certeza, vocês terão compreendido e quem sabe até passem a concordar comigo.

Minha complexa relação com a chuva começou bem cedo. Uma situação típica: quarta-feira, tarde ensolarada, minha mãe anunciava os planos para o fim de semana que estava por vir. “Vamos pra casa da vó”; “vamos pra casa da tia”; “vamos ao Passeio Público com a tia Valéria”. Sem problema! Eu gostava de visitar os parentes e passear (e adorava parques). E com alguns dias restando até o fim de semana, conseguia me organizar. Minha mente programava todos os detalhes possíveis, montando uma sequência a ser seguida para que eu me sentisse bem e seguro: sairíamos em tal horário, pegaríamos o ônibus ‘x’, encontraríamos tal pessoa no ponto ‘y’, etc. E à medida que o dia do passeio ia se aproximando, isso começava a me gerar ansiedade e, dependendo do que fosse, certa expectativa. Era, afinal, uma quebra da rotina, para a qual, porém, eu já havia me programado, tornando tudo menos problemático, ao menos em teoria. E por isso mesmo seria bom que os planos que havia feito mentalmente funcionassem na mais perfeita ordem. Seria, não fosse por um fator extraordinário que a essa altura vocês já devem estar imaginando qual é.

Domingo de manhã – o dia do passeio enfim chegara. Eu sequer tinha dormido direito; a ansiedade me fazia acordar várias vezes durante a noite, o coração palpitando, a sensação estranha de ardência no peito, típica de quando estou ansioso, as mãos apertando nervosamente uma à outra ou a pontinha do travesseiro. Apesar disso, levantava rápido, geralmente sem um pingo de sono. Olhava pela janela. Lá fora, um céu cinzento, escuro. Sentava à mesa para tomar o café da manhã e minha mãe dizia:

— Se chover a gente não vai…

Meus olhos arregalavam e o sangue gelava nas veias. Para mim o esquema estava todo organizado e simplesmente não havia qualquer possibilidade de não acontecer – nem mesmo se o mundo estivesse acabando. Mas, óbvio, eu não poderia simplesmente executar os planos sozinho. E como já imaginam, para o meu total desespero, a chuva, a dita cuja, maléfica, destruidora de planos e perturbadora dos passeios alheios, resolvia despencar de vez. Aquilo acabava comigo, me desorganizava por completo e me deixava, literalmente, sem saber o que fazer. O resultado de tudo isso: “crise”. Às vezes mais, às vezes menos, mas geralmente crise.

Isso não aconteceu uma, duas ou três vezes. Foram várias. Tantas que até perdi as contas e não tenho como lhes dar um número preciso agora. Algumas foram mais traumáticas, chegando até a deixar marcas – como quando, irritado, esmaguei entre as mãos o guarda-chuva inútil diante da ventania da tempestade que me encharcava e acabei com um corte fundo no dedo, cuja marca nunca desapareceu. Lembro também do dia do aniversário de 70 anos do meu avô. A família toda se reuniria em uma pizzaria para comemorar. Eu já me programava para o evento há semanas. Veria meus primos, alguns dos quais – mais novos ou mais velhos, mas dificilmente da mesma idade – eram as poucas crianças com que eu tinha maior contato. A comemoração se daria num sábado à noite e, logicamente, minha ansiedade e expectativa haviam chegado a um auge na manhã daquele mesmo dia. Depois do almoço, adivinhem só. Chuva. Tudo bem, não teríamos que pegar ônibus. Iríamos com o tio Júlio, que tinha carro e havia ficado de nos buscar, precisamente às 18 horas. Em tese, a chuva não seria problema, e isso me deixava mais tranquilo. Ah se eu soubesse…

Enfim dava o horário. Embora eu desejasse, meu tio não havia chegado um pouco antes do combinado. Nem em ponto. Nem cinco minutos depois. Muito menos dez minutos depois. A ansiedade ao extremo e a quebra de expectativa começavam a me deixar incomodado. O relógio já marcava 18h30. 18h45. E nada do tio aparecer.

— Acho que ele não vai mais, por causa da chuva – minha mãe comentava inocentemente.

— NÃO!

O berro, fosse mental ou verbal, vinha acompanhado de uma corrida até o quarto, onde me jogava na cama e ficava choramingando e resmungando, me sentindo terrivelmente mal e me torturando mentalmente ao imaginar meus primos brincando e diante da perspectiva de não poder estar lá. Alguns beliscões nos braços e nas costas eram minha forma de lidar com todo o excesso de angústia que vinha daquela situação. Para me acalmar, minha mãe contornava dizendo que o meu tio estava apenas atrasado, mas que iria aparecer. Só que obviamente eu já não acreditava muito nisso. Sem falar que queria chegar no horário, não horas depois, quando todos já estivessem indo embora e não tivesse mais nada para comer. Entretanto, quase uma hora e meia depois, meu tio finalmente apareceu e, para meu alívio completo, chegamos à festa ainda em tempo, já que não havíamos sido os únicos a nos atrasar. Melhorei de pronto, quase num passe de mágica (alguns pais já devem ter visto algo assim, não é?), mas o cansaço mental depois daquilo tudo só viria mais tarde.

Eu sei, a chuva é importante. Sei que há lugares em que quase não chove, onde as pessoas imploram por uma garoa que seja. Sei que ela é necessária, etc., etc., etc. Mas depois de tudo isso (e muito mais, que não contei aqui para não ficar muito extenso), não acham que tenho pelo menos um pouquinho de motivo para detestar a chuva?

Adendo: Nessa semana tivemos o Dia da Conscientização do Autismo. Consegui negociar no trabalho um horário diferenciado de almoço para participar da ação que seria realizada aqui em Curitiba, no período da manhã. Basicamente, eu estaria disponível das 10 h às 12 h, e às 10 h em ponto deixei o escritório e me dirigi ao local do evento. No caminho, notei o céu cinzento e as nuvens escuras ao norte, se aproximando rápido. Quando estava a somente 50 metros do ponto em que jazia a barraca, lá veio ela – a chuva –, despencando com todo seu vigor. E talvez não acreditem se eu disser que ela só parou já bem próximo das 12 h, quando desmontavam a barraca e guardavam as coisas para ir embora. Se quiserem, as testemunhas podem confirmar o fato. Então, me permitem dizer agora, com todas as letras: “odeio chuva”?

Uma cachoeira de sensações estranhas

MP900181805Balançar-se para cá e para lá geralmente é considerada uma das características mais marcantes das pessoas no espectro do autismo. Isso acontece, segundo os estudiosos, porque se trata de uma maneira de o autista se sentir equilibrado após uma série de estímulos externos pelo qual ele tenha passado e que o acabam sobrecarregando. Desse modo, balançar o corpo seria quase como um meio para “filtrar” esses estímulos e assimilá-los melhor. Se é realmente este o propósito de se balançar, não sei dizer, embora faça bastante sentido.

O fato é que não me recordo de alguma situação em minha vida em que essa característica tenha sido destacada, ou pelo menos mencionada por outra pessoa. Até cheguei a fazer isso, admito, mas apenas em momentos específicos. É como se não funcionasse tanto para mim quanto funciona para os outros. É possível que eu tenha encontrado outras formas de me sentir melhor depois de ter sido “sobrecarregado” – e hoje que me entendo melhor acredito piamente nisso. Mas isso não quer dizer que eu não tivesse outras manifestações daquilo que chamam de “conduta motora repetitiva” [se é que balançar o corpo se enquadra nessa categoria. Se não for o caso, relevem. Sou (quase) leigo no assunto; só sei do que vivo].

Como acontece com qualquer criança, autista ou não, algumas situações faziam com que eu me sentisse feliz, triste, com medo, confuso, desconfiado, empolgado, etc. E isso tudo, geralmente, vinha em forma de uma enxurrada de sensações com as quais eu não sabia ou não conseguia lidar, pelo fato de que não conseguiria definir e entender o que eu estava sentindo. Isso, por sua vez, talvez ocorresse porque eu não era capaz de identificar estes mesmos sentimentos nas pessoas ao meu redor. Eu não podia perceber o que elas sentiam somente por meio das suas expressões faciais. Foi assim por muito tempo e até hoje, imagino, tenho certa dificuldade. Dessa forma, ao não ser capaz de “ler” e entender os sentimentos alheios, eu não tinha quaisquer referências para compreender os meus próprios.

As sensações desconhecidas, fossem boas ou ruins, me provocavam reações nem um pouco comuns ao que podia ser considerado “normal” pelas pessoas. Assim, quando ficava feliz ou satisfeito – ganhar um presente, saber que finalmente iria a um lugar que desejava ir, comer algo que estava com vontade –, minha reação era, basicamente, bater palmas, bater as mãos nos joelhos ou esfregá-las nas pernas e depois bater palmas outra vez, repetindo isso inúmeras vezes até que houvesse alguma interferência. Era algo espontâneo, mais forte que eu; quando me dava conta, já estava fazendo isso. Entretanto, para as pessoas, lógico, se tratava de algo muito esquisito. Na verdade, até hoje não sei o que exatamente elas pensavam sobre esses meus gestos. Mas sei, e muito bem, o que elas faziam quanto a isso. Na família, principalmente, costumavam me imitar ou me lembrar disso quase sempre. Na escola, não lembro de ter acontecido com tanta frequência, mas me recordo de alguns colegas terem perguntado vez ou outra por que eu fazia aquilo. Por um ou por outro motivo, por volta dos 10, 11 anos de idade comecei a perceber que aqueles gestos eram considerados estranhos pelos demais. E assim, como foi com várias outras coisas, passei a escondê-los ou, quando não era possível, disfarçá-los o máximo que pudesse. Não foi fácil, mas com o tempo fui me adaptando, até chegar ao ponto de no máximo esfregar as mãos nos joelhos, num gesto tão discreto que quase sempre passava despercebido (embora dentro de casa, quando estava sozinho, eu me liberasse do peso de ter que me controlar).

Quando estava nervoso ou ansioso os alvos eram minhas mãos. Uma se esfregava à outra, depois se contorciam para lá e para cá, a esquerda apertando a direita com força e vice-versa. Com isso, no entanto, ninguém nunca implicou, pelo menos não o suficiente para fazer com que eu tivesse que começar a disfarçar. Se as pessoas não percebiam ou simplesmente não julgavam relevante o bastante para comentar sobre, já não sei dizer.

Por fim, a reação mais problemática de todas: a provocada por minha sensação de tristeza, medo ou irritação. Sobre essa nunca houve qualquer comentário ou piada. O motivo é simples: eu jamais fazia isso na frente das pessoas, me limitando a explodir em casa, no máximo (e ainda assim nem sempre) diante da minha mãe. Basicamente, eu precisava me autoagredir, da maneira que fosse, o que era às vezes — aí sim — acompanhado do típico balançar o corpo. Era beliscão no braço, na barriga, nas pernas, esfregão nos braços como se quisesse arrancar toda a pele deles e, eventualmente, tapas (cuja intensidade dependia do que eu estava sentindo) pelo corpo todo. Por sorte nunca cheguei a me machucar de maneira grave. Mas é um instinto com o qual ainda tenho de lidar algumas vezes.

Imagino que este último caso esteja relacionado ao que chamam, em inglês, de meltdown — não sei como seria o termo em português; talvez ‘crise’, como sugerido pela minha psicóloga. Essas reações violentas vinham, quase sempre, como resposta a algo que eu havia vivenciado e que, no caso, tinha feito me sentir mal: uma quebra inesperada de rotina, uma frustração por algo que eu esperava muito não ter acontecido, uma situação qualquer na escola. Porém, independente de onde fosse o ocorrido, minhas ‘crises’ só aconteciam em casa. Se algo desagradável acontecia na escola, eu me aguentava até chegar em casa, e lá explodia. Não sei explicar a razão disso, mas talvez fosse porque em casa me sentia seguro o bastante — e longe da vista de estranhos — para fazê-lo.

Ainda aproveitando o tema, alguns pais me perguntaram o que eu fazia quando sentia que ia ter uma ‘crise’. A resposta pode parecer simplista demais, mas posso dizer que funcionava na maioria das vezes. Foi algo que acabei descobrindo sozinho, embora com alguma influência da minha mãe, imagino. No caso, quando começava a me sentir mal ou “desorganizado“, procurava algo que me agradasse — geralmente relacionado a um dos meus interesses específicos. Assim, ia aos poucos me sentindo melhor, aquietando aquelas sensações todas e, consequentemente, voltando a um emocional mais estável. Depois de algum tempo, o simples fato de tentar pensar sobre algum dos meus assuntos preferidos já era suficiente para me deixar bem (tanto que mantenho a prática até hoje). Fica, portanto, a dica; por mais que ela não seja eficiente em casos extremos, vale a pena tentar!

O cadeirante e o autista

Na escola, na família e em outros ambientes minha relação com a grande maioria das crianças da minha idade nunca foi muito boa. É bem verdade que, a não ser por um ou outro ano escolar, nunca cheguei a ser completamente isolado. E alguns colegas, geralmente (mas nem sempre) os mais centrados e menos problemáticos da turma – dois dos quais mencionei no post sobre os cadarços –, fizeram o movimento de se aproximar de mim e, se não se pode dizer que formaram “laços de amizade”, ao menos estabeleceram comigo certo coleguismo. Isso, no entanto, foi mais comum na infância e bem menos frequente a partir da pré-adolescência.

O motivo dessa falta de vínculos era, digamos, bilateral. Do meu lado, não queria ter de conviver e me juntar a garotos que eu considerava absurdamente estúpidos (tanto no sentido da grosseria quanto no da inteligência questionável). Eu os via como uns bobalhões, e não queria sequer parecer com eles, quanto mais andar com eles. Eu evitava falar as coisas que falavam e fazer as coisas que faziam. Gostava de ser do meu jeito, diferente, por mais que, lá no fundo, me ressentisse por isso acabar me isolando. Do lado deles, não queriam ser amigos do “certinho”, do “CDF”, do “esquisito” da turma. Eu tirava notas altas demais e bagunçava de menos. Isso certamente estragaria sua reputação. Era melhor que se mantivessem distantes e que só se aproximassem se fosse para me zombar, estapear ou chutar (ou quando, eventualmente, surgissem trabalhos em equipe).

Porém, um ano, dentre tantos, foi diferente de tudo que eu havia vivenciado – e, arrisco dizer, do que vivenciei depois dele também. Fevereiro de 1998. As aulas haviam começado e eu, para variar, estava em uma escola nova. A turma da 6ª série era grande, como de praxe nas escolas públicas. Não que eu me incomodasse (muito). O barulho, claro, não era lá muito agradável, mas depois de seis anos naqueles ambientes eu já havia pelo menos me habituado. Contudo, em turmas maiores era mais fácil passar despercebido. Isso, por si só, era ótimo para mim.

Já havia se passado duas semanas desde o início das aulas. Como de costume, eu ainda não tinha feito nada mais que trocar poucas palavras com os colegas que se sentavam em carteiras próximas à minha. Nos recreios (ou intervalos, como preferirem), mantinha-me à parte, andando para lá e para cá e me limitando a observar a balbúrdia toda que se formava. Nas aulas de Educação Física não era muito diferente (ainda farei um post sobre este outro “desastre” da minha vida escolar). Felizmente a professora da disciplina não parecia querer forçar os alunos ainda no início do ano, e eu, “ufa”, passava longe, e sem problemas, dos times de futebol, vôlei ou o que fosse.

Era uma tarde quente de verão e o sol brilhava forte no céu. Guiados pela professora de Educação Física, saíamos pelo corredor rumo ao pátio. A claridade doía nos olhos. Os meninos (ou a maioria deles), empolgados, corriam direto para a quadra que jazia bem na frente do bloco em que nossa sala ficava. As meninas (e alguns meninos) se dirigiam para a quadra à direita, prontas para organizar suas equipes para uma partida ou uma roda de vôlei. Eu sequer entrava nas quadras. Mantinha-me do outro lado da tela de arame que as separava do pátio. Não queria correr o risco de ser chamado para jogar (ainda – ainda – não havia tido tempo para receber minha fama habitual, e os garotos poderiam eventualmente me convidar para um dos times). Preferia ficar em pé ali, somente observando o jogo, ou me sentar à beira da parte coberta do pátio, ou mesmo achar algo melhor para fazer sozinho. E naquele dia eu achei.

O grande amigo

O grande amigo

Avistei um pedaço de tijolo jogado num canto, encostado na tela que separava o pátio da quadra. Pronto; havia encontrado um passatempo. Coloquei o tijolo no pequeno corredor entre o pátio coberto e a quadra. Tomei distância, corri e saltei. Explico: eu estava brincando de salto a distância e o tijolo era a marca que eu tinha que superar. Fiz isso duas, três, quatro vezes, mas sem muito sucesso. Teria feito outras repetidas vezes não fosse a interferência de alguém que estava ali perto, e que até então eu não havia notado.

— Você tem que ir um pouco mais longe pra conseguir.

Ouvi a voz e olhei para o seu dono. Ele estava ali, isolado como eu. Era um dos meus colegas de turma, um garoto em uma cadeira de rodas (cadeirante, se julgarem melhor). Tudo que eu sabia sobre ele até aquele instante era que tínhamos o mesmo nome. Hoje vejo que tínhamos muito mais que isso em comum. Sorri e, aceitando o conselho, continuei a brincadeira, agora sob a “orientação” dele. A partir dali, já não lembro bem os detalhes, começamos a conversar e a passar as aulas de Educação Física e os recreios juntos.

Não muito tempo depois ele me contou sobre seu “problema”. Ele sofria de distrofia muscular, uma doença degenerativa que havia lhe tirado a força dos músculos e, por consequência, os movimentos das pernas quando tinha apenas cinco anos de idade. Para mim, o fato de ele estar em uma cadeira de rodas não fazia a menor diferença. De algum modo, havia me dado bem com ele, e o sentimento era recíproco. Aos poucos fomos nos conhecendo, até o ponto de criarmos certa cumplicidade, numa intensidade tão grande que eu jamais havia vivenciado, e que nunca mais experimentei depois disso. Falávamos tudo sobre tudo; contávamos segredos, prometíamos não contá-los para mais ninguém (e, desculpem, hei de cumprir a promessa). Conversávamos inclusive sobre garotas, coisa que teria me deixado totalmente desconfortável diante de qualquer outra pessoa. Menos dele. Lembro que, para evitar a algazarra no retorno do recreio, a inspetora pedia para que alguém o conduzisse para a sala alguns minutos antes do sinal. E, claro, ele me apontava para levá-lo, porque aí teríamos mais alguns minutos para conversarmos.

Por sinal, depois de algum tempo conduzindo a cadeira de rodas para levá-lo aonde queria, no intervalo ou na saída, me tornei quase um expert – os buracos, subidas, descidas e degraus da escola nada inclusiva já não eram mais obstáculos. Assim, passávamos juntos quase todo o tempo “livre”. Eu era suas pernas, e ele a habilidade social que me faltava. Por meio dele eu conseguia interagir com os demais; ele me entendia, me “traduzia” para os outros e, de certa forma, me ajudava a entendê-los. Desse modo, acabamos por formar, com outros meninos e algumas meninas, um pequeno grupo com uma relação de amizade tão saudável que nunca mais esqueci. Talvez isso não signifique muito para alguém que foi rodeado de amigos próximos a vida toda. Para mim foi único.

Infelizmente, não durou mais que um ano. Em 1999, mudei de bairro e de escola, novamente. Depois disso, foram poucas as vezes em que vi meu amigo. Encontrei a mãe dele vez ou outra, e ela me dizia que ele se queixava por não ter mais, na escola, um amigo como eu. Para mim não era diferente. Só voltei a vê-lo com mais frequência cinco anos mais tarde, quando voltei ao bairro, mas não por muito tempo. A distrofia havia avançado, e ele já mal podia mover os braços. Conversamos pouco nessa época; eu tinha medo de que ele, como tantos outros, não fosse mais o mesmo. Me arrependo por não ter me aproximado tanto quanto poderia.

Dois anos depois, soube que ele estava no hospital. Não me lembro de ter ido a um hospital – por vontade própria – visitar alguém antes disso, mas não poderia deixar de vê-lo. Ele estava inconsciente e seu estado era grave. Gostaria de ter falado com ele assim mesmo. Tinha certeza de que me ouviria. No entanto, a presença de outras pessoas no quarto me intimidou. Só o que fiz foi tocar seu braço e desejar, esperançoso, que se recuperasse.

Mas ele não pôde resistir ao avanço da doença. Poucas semanas depois, eu estava em seu velório, sem saber o que fazer e sem entender o que eu mesmo sentia. Acho que, no meu íntimo, não compreendo bem o significado da morte (e alguém compreende?); não consigo conceber que uma pessoa simplesmente deixe de existir, assim, de uma hora para outra. E talvez por isso não tenha conseguido chorar.

Sei que não durou tanto quanto eu gostaria e que não há mais chance de continuar a história. Mas agradeço a D-us por ter me dado o privilégio de ter um amigo tão especial. E agradeço a ele, ao meu amigo, por ter feito por mim muito mais do que eu fiz por ele. Agradeço-lhe por ter me mostrado o que é a amizade. Não fosse ele, eu jamais teria compreendido plenamente esse sentimento tão belo e profundo. Muito obrigado.

Cadarços desamarrados

Cadarços...

Cadarços…

Sempre tive problemas relacionados à coordenação motora fina. Isso foi algo que me afligiu durante toda a infância e boa parte da adolescência, pelo simples fato de não conseguir realizar determinadas atividades, não importava o quanto tentasse. A escola, logicamente, foi o ambiente em que mais percebi isso. Quando via as outras crianças fazendo tão facilmente coisas que para mim pareciam – e eram – tão complicadas, eu era tomado pela sensação de ser um garoto estranho, ou até mesmo “burro” ou “incapaz” (sim, eu pensava em todas essas possibilidades).

Uma dessas coisas era amarrar os cadarços. Essa tarefa corriqueira pode ser extremamente simples para a grande maioria das pessoas, mas não era para mim (e, admito, ainda não é). Minha mãe havia tentado me ensinar, é verdade, mas não lembro o quanto ela chegou a insistir. De qualquer modo, enrolar aqueles fios, fazer nós e amarrá-los era algo muito complexo. Assim, o tempo foi passando e, ao chegar a uma idade em que as crianças geralmente já conseguem fazer isso sem muitos problemas, eu ainda não havia aprendido.

Lembro como se fosse ontem. Minha mãe costumava amarrar meus cadarços antes que eu saísse para ir à escola. Quando ela teve que voltar a trabalhar, deixava os tênis já amarrados e tudo que eu tinha que fazer era enfiar os pés dentro deles e pronto. O problema era que os ditos cujos nunca permaneciam amarrados o dia todo – quando eu olhava para baixo ou sentia algo balançando nos pés, lá estavam eles, os cadarços, serpenteando de um lado para o outro. Tudo bem, confesso, vez ou outra era eu mesmo o culpado. Minha falta de jeito às vezes me fazia pisar na pontinha do cordão quando ia me levantar da cadeira ou mesmo enquanto caminhava (cansei de contar quantas vezes me disseram que eu tinha os pés “tortos” graças ao meu jeito esquisitão de andar), e aí pronto: cadarços desamarrados.

Era um dos terrores da minha vida. Enquanto assistia à aula de matemática, olhava para baixo e sentia o sangue gelar: os cadarços soltos, pendendo no chão. “Ah não…”, era o que me ocorria, enquanto torcia (e me retorcia) mentalmente para que ninguém olhasse para os meus pés. Mas alguém sempre via, e eu só ouvia, para piorar diante de várias testemunhas:

– Teu tênis tá desamarrado!

Felizmente nunca fui expressivo e poucas vezes demonstrei meus sentimentos na expressão do rosto (ou assim imagino), mas o que eu sentia, naquele instante, era medo. Eu talvez conhecesse pouco das convenções sociais, mas de uma coisa eu tinha certeza: não queria me tornar o centro das atenções, muito menos por um motivo como aquele, que me faria ser caçoado pela turma toda. Por isso mesmo, eu jamais poderia admitir que não sabia amarrar os cadarços (a maior parte dessas situações aconteceu entre meus 10 e 12 anos de idade). Por outro lado, eu não podia, lógico, amarrá-los, nem mesmo fingir que o fazia, pois ficaria claro que eu não conseguia. Para ajudar ainda mais, as professoras algumas vezes ouviam (porque eu me sentava nas primeiras carteiras, sempre), e reforçavam:

– Amarre, senão vai tropeçar e se machucar!

Aí, geralmente, só me restava dar a desculpa mais esfarrapada que eu conseguia arranjar.

– É… eu… depois eu amarro… – dizia, eventualmente tropeçando nas palavras.

Algumas vezes funcionava, e todos se davam por satisfeitos com isso ou pelo menos encontravam algo melhor com o que se ocupar. Mas para o meu desgosto, às vezes havia insistência. E dada a minha efusiva recusa, alguém acabava berrando:

– Ele ainda não sabe amarrar o sapato!

 

A despeito desses momentos caóticos, tenho algumas lembranças melhores relacionadas aos meus benditos cadarços desamarrados. São também dessa época, mas que envolveram pessoas que, de certo modo, fizeram algo diferente. Lembro de um colega da 4ª série (hoje 5º ano) que, em vez de insistir ou me atormentar ou, ainda, me zombar por andar pela escola com os cadarços desamarrados (por que isso acontecia tanto nos recreios??), se ofereceu para amarrá-los para mim; não bastasse amarrá-los, ainda foi paciente para tentar me ensinar a refinada “técnica” (embora isso infelizmente não tenha funcionado). No ano seguinte, na 5ª série, uma amiga e colega de turma que caminhava comigo para a escola – que era longe, distante mais de 10 quadras da minha casa – fez a mesma coisa e, em certa ocasião, ciente de que eu não conseguia fazê-lo, amarrou os pobres cadarços que até então se arrastavam pelo chão.

É claro que me senti incomodado e até mesmo envergonhado nessas situações. Mas hoje, me lembrando desses dois colegas (e amigos, por que não dizer), vejo como foram especiais em não terem agido como a grande maioria. Eles não se limitaram a perceber o fato; não reagiram falando, apontando ou rindo. Eles agiram, fazendo o que podiam para “desatar os nós” (ou, nesse caso, atá-los). Fizeram a diferença. Com um gesto simples, jamais tão complicado quanto o ato de amarrar cadarços.