Uma carta aberta ao meu futuro eu

Hoje, após 31 anos e quase 9 meses de milhares de tentativas e de outras tantas experiências, resolvi escrever esta carta para mim mesmo. Para o meu futuro eu. Ele, quem sabe, lerá estas palavras e rirá delas, percebendo-se como um jovem ridiculamente imediatista e ansioso ao extremo. Ou, talvez, concordará plenamente com o conteúdo, recordando-se da mediocridade de seus anos e já desprovido de quaisquer expectativas. Porventura sequer chegará a isso, tendo já sido reunido a seus antepassados. Seja o que for, o conteúdo desta abrange uma constatação dura e de fato realista.

Estou cansado de tentar. Conforme exposto nas linhas que abrem esta carta, foram-se, até aqui, três décadas de experimentações e consecutivas frustrações. Como costumo dizer, o autismo me trouxe muitas coisas boas, de tal modo que simplesmente não consigo conceber minha existência sem ele – e, por incrível que pareça a algumas pessoas, em momento algum desejei que isto tivesse sido diferente. O autismo é parte indissociável de quem sou, para o bem e para o “mal”. Há aqueles que anseiam por verem-se livres ou por verem seus filhos livres do espectro, e não os culpo. Não é o meu caso. E talvez seja este o meu problema.

Desde a infância sou acometido por um dilema realmente paradoxal: não quero que as pessoas se aproximem de mim, mas quero me ver próximo delas. Assim, durante a maior parte dos anos escolares, por exemplo, ao mesmo tempo que achava meus colegas bobos e infantis, me ressentia por não fazer amigos como os demais faziam; na adolescência, a necessidade de, de algum modo, ser parte de um grupo transformou-se num tormento que trouxe consigo, para a vida adulta, uma questão de maior profundidade: quem seria eu, afinal?

É certo que os seres humanos se desenvolvem, para além do fator biológico, a partir da observação do meio, isto é, de sua convivência com os demais. Deste modo, a participação em grupos a partir da adolescência, ao meu ver, acaba sendo um fator que contribui grandemente para a formação da identidade de um indivíduo, pois é com base nas vivências oriundas desses grupos que ele se constrói como um alguém. Isto acontece com a maioria das pessoas, de uma forma ou de outra. Mas meu paradoxo me distraiu por anos e anos, e assim me esqueci de observar.

Mesmo assim eu tentei. Ávido pela escrita (uma particularidade com a qual fui abençoado, visto que grande parte dos autistas tem tanta dificuldade na comunicação escrita quanto tem na oralidade), busquei na literatura um refúgio, inicialmente para os meus dilemas interiores e para as feridas que já carregava comigo – aí, talvez, a raiz do meu erro – e depois para explorar uma das poucas coisas que acreditei ser em mim uma espécie de talento. Sempre otimista, dediquei alguns anos à criação do que eu imaginava ser literatura, optando curiosamente por um gênero de escape que procurava tratar de fatores concretos a partir de elementos abstratos. Cria piamente que, assim como alguns exemplos “próximos”, eu passaria a fazer parte de um grupo de pessoas que fazem das palavras armas poderosas para provocar reflexões genuínas e sem dúvida necessárias. Mas, limitado, falhei miseravelmente, vendo-me incapaz de chegar a um estágio mínimo de desenvolvimento para me tornar, de fato, integrante da classe.

Ainda que já tivesse concluído que minha criatividade jamais atingiria um nível suficiente, resolvi me dispensar uma nova chance. Tendo tomado também o gosto por contar histórias (aqui, neste mesmo blog, há um texto que escrevi aos 13 anos), imaginei que poderia vir a fazê-lo de outra maneira, partindo para uma área que me despertava igual atenção e interesse: o cinema, ou, no caso, o audiovisual. Este gosto se viu ampliado para um encantamento nas leituras das deliciosas críticas de cinema escritas pelo crítico Pablo Villaça, que traziam em geral análises detalhadas de elementos outros que não apenas o roteiro e me faziam imaginar como coisas como enquadramento, movimentos de câmera e colorização podem compor histórias fascinantes e significativas. Por esse motivo, não pensei duas vezes quando surgiu a oportunidade de fazer um curso para me aprofundar na área e, quem, sabe, me encontrar. Completo neste momento uma jornada longa de mais de oito meses repletos de máxima dedicação e esforço e mesmo um considerável sacrifício financeiro – apenas para constatar que aqui também meu limite se impõe como uma barreira grande demais para ser transposta.

Posso dizer, desta forma, que hoje, aos 31, embora tenha tentado, não cheguei de fato a lugar algum. Porém, as grandes frustrações atreladas diretamente à identidade (devo explicar que expostas acima estão apenas duas delas, mas não todas) não são os fatores de maior relevância para esta desilusão no que diz respeito à vida como um todo. É lógico, contudo, que o tópico de que tratarei agora se relaciona de maneira clara a parte desses insucessos.

A verdade é que, no fim das contas, minha baixa sociabilidade e minha quase completa “falta de tato” social acabaram impactando tudo aquilo que tentei fazer. Estamos em um mundo que se baseia em relações sociais. Como tantas vezes ouvi durante o curso mencionado acima, o cinema, por exemplo, é uma arte coletiva. A literatura não, mas sua essência se pauta na observação dessas relações. Por todos esses anos lutei, me esforcei e busquei de todas as formas que me foram possíveis entender esse mundo, compreender as pessoas que o compõem. Mesmo muitas vezes “não querendo”, procurei trazer à tona uma sociabilidade de que não dispunha (e muitas vezes falhando por desconhecer regras que se mantêm implícitas). Acredito ter feito tudo que pude, mas, ao final, não consegui descobrir a fórmula.

Uma pessoa mantém normalmente conversas com outras, mas com você, quando acontece, surgem aqueles silêncios estranhos que você não consegue imaginar como quebrar e que ela parece não fazer questão de encerrar. Por quê? Por que alguém subitamente deixa de falar com você e passa a lhe ignorar, sem ao menos lhe dizer o que houve ou o que você eventualmente fez de errado, a fim de que possa se desculpar? Por que lhe tratam de maneira diferente (e muitas vezes menos atenciosa) do que tratam outros mesmo sem saberem sobre o autismo? Por que o fato de você ser menos extrovertido lhe torna menos visível diante das pessoas em geral?

Noto que muitas pessoas se incomodam por se sentirem excluídas, seja por sua sexualidade fora do padrão, por seu peso, por sua cor de pele ou mesmo por seu estilo de roupas ou de cabelo. Com todo respeito, penso que tenho propriedade para dizer que elas não sabem o que é realmente se sentir “de fora”. Essas pessoas, embora de fato sofram com o preconceito, o que é muito ruim, costumam reunir-se em suas particularidades. Em outras palavras, elas são parte de um grupo, que ainda que seja posto à parte pela sociedade em geral, não deixa de ser um grupo, o qual reforça sua identidade. Os autistas, por sua vez, estão imbuídos do sentimento de não pertencimento em sua essência – não conseguem se aproximar de quem quer que seja e, por consequência, raramente se juntam a um grupo, por mais que desejem fazê-lo. Alguns conseguem, geralmente graças aos esforços e à boa vontade verídica de alguém. E posso dizer que são raríssimas as pessoas que se dispõem a incluir de verdade, mesmo aquelas que levantam bandeiras de inclusão e de aceitação ao diferente.

Como já expressei, não desejo que tivesse nascido neurotípico. Ainda assim, gostaria que algumas coisas em minha vida tivessem sido diferentes, e por muitos anos me esforcei para que viessem a ser. Mas a este ponto cheguei à conclusão de que não há mais nada que eu possa fazer para mudar esse panorama. Portanto, não vejo por que continuar tentando.

Este texto é propositalmente grande, pois, por se tratar de algo que escrevi para mim mesmo a fim de que pudesse refletir sobre o tema, sei que isso fará com que a maioria das pessoas desista de lê-lo quase que de imediato. Mas se você, pai ou mãe de autista, chegou até este parágrafo, tenho algo a lhe pedir: por favor, não tome estas palavras pesadas de forma negativa. Pelo contrário, use este relato a favor de seu(sua) filho(a). Desejo que esta minha vivência não muito bem-sucedida possa contribuir para que vocês, pais, encontrem maneiras para ajudar suas crianças, para que elas possam crescer e sentir muito menos esse gosto amargo irremediável. Por falta de conhecimento, meu e dos meus pais, não tive o suporte que vocês hoje proporcionam para elas. Isto quer dizer que, se vocês conduzirem tudo com amor e com sabedoria, as perspectivas para elas serão muito melhores. Estou torcendo, de coração, para que todos estes meus futuros eus consigam encontrar seu lugar e possam se tornar verdadeiras bênçãos para este mundo.

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3 pensamentos sobre “Uma carta aberta ao meu futuro eu

  1. Oi Di, q bom q vc voltou a escrever, sempre leio e arquivo suas histórias/crônicas. Sou suspeita p falar e te elogiar, mas vc tem nos ajudado muito c o tratamento da Iasmin, obrigada.

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