Não chove chuva, não chove e pare já!

Minha pior inimiga, dona chuva

Minha pior inimiga, dona chuva

Não posso dizer que estou muito contente com as coisas no Brasil (se tivesse condições, acho que já teria me mandado daqui). Mas digo, sem sombra de dúvida, que amo a cidade em que vivo e que dificilmente a trocaria por outra (neste país). Minha quase sempre cinzenta Curitiba, nacionalmente conhecida pelo clima fechado que, teoricamente, reflete no humor de seus habitantes, é (ou devo dizer “já foi”?) um lugar razoavelmente bom de se viver, apesar dos pesares. Entretanto, Curitiba, em decorrência da sempiterna cinzentice, me ensinou a detestar algo que, em geral, as pessoas costumam amar, ignorar ou ao menos relevar.

Chuva. Ah, chuva! Que foi que eu lhe fiz para ser tão perseguido? Ao contrário do que parece, meus amigos, não estou fazendo drama. Ao final deste texto, tenho certeza, vocês terão compreendido e quem sabe até passem a concordar comigo.

Minha complexa relação com a chuva começou bem cedo. Uma situação típica: quarta-feira, tarde ensolarada, minha mãe anunciava os planos para o fim de semana que estava por vir. “Vamos pra casa da vó”; “vamos pra casa da tia”; “vamos ao Passeio Público com a tia Valéria”. Sem problema! Eu gostava de visitar os parentes e passear (e adorava parques). E com alguns dias restando até o fim de semana, conseguia me organizar. Minha mente programava todos os detalhes possíveis, montando uma sequência a ser seguida para que eu me sentisse bem e seguro: sairíamos em tal horário, pegaríamos o ônibus ‘x’, encontraríamos tal pessoa no ponto ‘y’, etc. E à medida que o dia do passeio ia se aproximando, isso começava a me gerar ansiedade e, dependendo do que fosse, certa expectativa. Era, afinal, uma quebra da rotina, para a qual, porém, eu já havia me programado, tornando tudo menos problemático, ao menos em teoria. E por isso mesmo seria bom que os planos que havia feito mentalmente funcionassem na mais perfeita ordem. Seria, não fosse por um fator extraordinário que a essa altura vocês já devem estar imaginando qual é.

Domingo de manhã – o dia do passeio enfim chegara. Eu sequer tinha dormido direito; a ansiedade me fazia acordar várias vezes durante a noite, o coração palpitando, a sensação estranha de ardência no peito, típica de quando estou ansioso, as mãos apertando nervosamente uma à outra ou a pontinha do travesseiro. Apesar disso, levantava rápido, geralmente sem um pingo de sono. Olhava pela janela. Lá fora, um céu cinzento, escuro. Sentava à mesa para tomar o café da manhã e minha mãe dizia:

— Se chover a gente não vai…

Meus olhos arregalavam e o sangue gelava nas veias. Para mim o esquema estava todo organizado e simplesmente não havia qualquer possibilidade de não acontecer – nem mesmo se o mundo estivesse acabando. Mas, óbvio, eu não poderia simplesmente executar os planos sozinho. E como já imaginam, para o meu total desespero, a chuva, a dita cuja, maléfica, destruidora de planos e perturbadora dos passeios alheios, resolvia despencar de vez. Aquilo acabava comigo, me desorganizava por completo e me deixava, literalmente, sem saber o que fazer. O resultado de tudo isso: “crise”. Às vezes mais, às vezes menos, mas geralmente crise.

Isso não aconteceu uma, duas ou três vezes. Foram várias. Tantas que até perdi as contas e não tenho como lhes dar um número preciso agora. Algumas foram mais traumáticas, chegando até a deixar marcas – como quando, irritado, esmaguei entre as mãos o guarda-chuva inútil diante da ventania da tempestade que me encharcava e acabei com um corte fundo no dedo, cuja marca nunca desapareceu. Lembro também do dia do aniversário de 70 anos do meu avô. A família toda se reuniria em uma pizzaria para comemorar. Eu já me programava para o evento há semanas. Veria meus primos, alguns dos quais – mais novos ou mais velhos, mas dificilmente da mesma idade – eram as poucas crianças com que eu tinha maior contato. A comemoração se daria num sábado à noite e, logicamente, minha ansiedade e expectativa haviam chegado a um auge na manhã daquele mesmo dia. Depois do almoço, adivinhem só. Chuva. Tudo bem, não teríamos que pegar ônibus. Iríamos com o tio Júlio, que tinha carro e havia ficado de nos buscar, precisamente às 18 horas. Em tese, a chuva não seria problema, e isso me deixava mais tranquilo. Ah se eu soubesse…

Enfim dava o horário. Embora eu desejasse, meu tio não havia chegado um pouco antes do combinado. Nem em ponto. Nem cinco minutos depois. Muito menos dez minutos depois. A ansiedade ao extremo e a quebra de expectativa começavam a me deixar incomodado. O relógio já marcava 18h30. 18h45. E nada do tio aparecer.

— Acho que ele não vai mais, por causa da chuva – minha mãe comentava inocentemente.

— NÃO!

O berro, fosse mental ou verbal, vinha acompanhado de uma corrida até o quarto, onde me jogava na cama e ficava choramingando e resmungando, me sentindo terrivelmente mal e me torturando mentalmente ao imaginar meus primos brincando e diante da perspectiva de não poder estar lá. Alguns beliscões nos braços e nas costas eram minha forma de lidar com todo o excesso de angústia que vinha daquela situação. Para me acalmar, minha mãe contornava dizendo que o meu tio estava apenas atrasado, mas que iria aparecer. Só que obviamente eu já não acreditava muito nisso. Sem falar que queria chegar no horário, não horas depois, quando todos já estivessem indo embora e não tivesse mais nada para comer. Entretanto, quase uma hora e meia depois, meu tio finalmente apareceu e, para meu alívio completo, chegamos à festa ainda em tempo, já que não havíamos sido os únicos a nos atrasar. Melhorei de pronto, quase num passe de mágica (alguns pais já devem ter visto algo assim, não é?), mas o cansaço mental depois daquilo tudo só viria mais tarde.

Eu sei, a chuva é importante. Sei que há lugares em que quase não chove, onde as pessoas imploram por uma garoa que seja. Sei que ela é necessária, etc., etc., etc. Mas depois de tudo isso (e muito mais, que não contei aqui para não ficar muito extenso), não acham que tenho pelo menos um pouquinho de motivo para detestar a chuva?

Adendo: Nessa semana tivemos o Dia da Conscientização do Autismo. Consegui negociar no trabalho um horário diferenciado de almoço para participar da ação que seria realizada aqui em Curitiba, no período da manhã. Basicamente, eu estaria disponível das 10 h às 12 h, e às 10 h em ponto deixei o escritório e me dirigi ao local do evento. No caminho, notei o céu cinzento e as nuvens escuras ao norte, se aproximando rápido. Quando estava a somente 50 metros do ponto em que jazia a barraca, lá veio ela – a chuva –, despencando com todo seu vigor. E talvez não acreditem se eu disser que ela só parou já bem próximo das 12 h, quando desmontavam a barraca e guardavam as coisas para ir embora. Se quiserem, as testemunhas podem confirmar o fato. Então, me permitem dizer agora, com todas as letras: “odeio chuva”?

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13 pensamentos sobre “Não chove chuva, não chove e pare já!

  1. Jacob, hj almocei com meu compadre e lhe perguntei se ele vai na caminhada que será realizada, no próximo domingo, em prol da conscientização sobre o autismo. Adivinha o que ele me disse? “Só não vou se chover”. Me perguntou, logo em seguida: “E você, se chover, vai assim mesmo?”. Prontamente lhe respondi: nós vamos, faça chuva, faça sol…

    • É isso aí, Marcelo, não dá pra deixar a chuva atrapalhar! Especialmente se tratando desse evento. 😀 Mas geralmente ela incomoda mesmo. Aqui em Curitiba acabou atrapalhando e a maioria do pessoal não pôde aparecer.

    • Olá Jacob.
      Tive que explicar para uma porção de gente questionando por que não enfrentei a chuva no Dia Mundial da Conscientização, na Boca Maldita.
      Das tantas histórias que sabemos a que melhor justificou foi a de que: “Curitiba só tem duas estações. O inverno e a Rodoferroviária”.
      Quem sabe domingo…
      Abraços

      • Olá, Nilton! E essa história é realmente verdadeira. A única coisa é que o inverno pelo menos podia ser um pouco mais frio!
        Abraços, obrigado pela visita!

  2. Raras são as vezes que ela cai em boa hora =)

    Um rascunho velho, meu, que achei bem propício:

    O que mudou naquela tarde

    E quando pensei que mais nada pudesse acontecer,
    Chuva!
    A boa e velha
    chuva de verão.
    Veio bem rápida, bem forte
    escureceu
    ventou
    Foi esfriando… Respingando..
    Foi-se embora –
    E a tarde
    entristeceu.

    Abraço e continue escrevendo!!!
    Carol

  3. Eu já passei por várias frustações semelhantes, principalmente com relação à praia. Foram várias as vezes que fomos pra praia e só choveu, em pleno verão, e eu querendo sol, pra ir ao mar, brincar, etc. Aprendi com tudo isso e seguindo o exemplo do meu pai a não me importar muito com o tempo para ser feliz e aproveitar as coisas. Hoje vou para a praia com chuva ou sem chuva. Entro no mar com chuva ou sem chuva. Foi duro, mas aprendi. Uma boa notícia pra vc. Em Israel, a época de chuvas é durante apenas o inverno. Durante as outras estações não chove. Então nenhum plano seu seria frustrado lá, por causa da dita cuja.

    • Oi, Sonia! Por conta das coisas no trabalho não tenho conseguido escrever muito. Mas quero continuar postando aqui no blog, nem que seja uma vez por mês. Vamos ver! E obrigado pela visita! 🙂

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