A perna curta da mentira

Dizem por aí que os autistas, em especial os aspies, são pessoas que nunca mentem e que são sempre um poço de sinceridade, doa a quem doer. Isso pode ser verdade, em parte e na grande maioria dos casos. Mas imagino que seja não mais que outras dessas generalizações que se faz em torno do tema autismo (como, por exemplo, “os autistas não têm empatia”, ou “autistas nunca olham nos olhos”). O que é um problema, no fim das contas, porque generalizações desse tipo criam estereótipos e geralmente desconsideram o importantíssimo fato de que cada caso é um caso, e que, assim como acontece com os neurotípicos, os autistas também são influenciados pelo meio em que vivem, e isso acaba influenciando sua personalidade e o modo como fazem as coisas, mesmo que de um jeito inconsciente.

Tudo bem, é mais do que claro que os autistas realmente não costumam mentir ou, pelo menos, têm muita dificuldade com isso. Isso acontece devido à mente extremamente lógica e literal que eles têm (mais uma vez, especialmente os aspies). Assim, é bastante complicado para um aspie dizer “não, mãe, não fui eu que quebrei a sua xícara de porcelana; foi o gato que quebrou”, quando, na verdade, foi ele mesmo que a quebrou, e não faria qualquer sentido reportar algo diferente disso, por mais que se saiba que consequências não muito agradáveis virão.

No entanto, isso não significa que seja completamente impossível para um autista contar uma mentira. Pode acontecer sim, dependendo do contexto em que ele foi criado. Pode ser diferente (e às vezes estar mais do que claro que se trata de uma invenção), pode demorar bem mais para que ele comece a fazer isso se comparado a uma criança que não esteja no espectro do autismo, mas não estranhe se um dia acontecer. Além disso, o autista pode acabar aprendendo, por algum motivo, que em algumas situações é melhor não dizer a verdade. Por exemplo, diante de fatores muito negativos e constantes. Se, no caso, toda vez que disser a verdade os pais o agredirem ou o destratarem em vez de terem uma conversa séria e explicarem por que aquilo não devia ter sido feito ou dito, e ele acabar descobrindo (até mesmo observando o comportamento dos pais, muitas vezes) que às vezes pode inventar coisas que não condizem com a realidade e assim escapar de todos esses estímulos ruins.

Tão forte e tão perto (EUA, 2011). Recomendo!

Tão forte e tão perto (EUA, 2011). Recomendo!

Ano passado fui ao cinema assistir Tão forte e tão perto (Extremely Loud and Incredibly Close, EUA, 2011), estrelado por Sandra Bullock, Tom Hanks, Max von Sydow, Viola Davis e pelo brilhante Thomas Horn. Muita gente criticou o filme, julgando o garoto Oskar Shell (protagonista, vivido por Horn) como uma “criança chata e egoísta” (li isso em uma crítica de certo cinéfilo famoso por aí). Mas poucos sabiam que o personagem é aspie, fato mencionado apenas brevemente no filme (e, pelo que eu soube, melhor descrito no livro que inspirou a película). O que quero destacar sobre o filme é o fato de Oskar, em certo momento, aprender a contar mentiras (divertidamente estapafúrdias, aliás) para conseguir manter seu plano e alcançar seu objetivo. E é justamente isso que acontece, ou pode acontecer, com qualquer aspie ou mesmo autista de alto funcionamento. A propósito, se ainda não assistiu o filme, assista! Vale muito a pena.

Não sei dizer sobre quando era bem pequeno, mas me lembro de ter contado a primeira mentira (ou pelo menos uma das primeiras) por volta dos 11 anos. E foi tão marcante que nunca mais esqueci. Minha mãe trabalhava fora, e morávamos numa casa pequena com meu irmão, cunhada e sobrinha. Eu saía cedo para ir à escola, que era distante algumas boas quadras de casa. Naquele dia minha mãe havia me dado dinheiro para que eu comprasse pães para o café da tarde assim que voltasse da aula. Eu geralmente ia sozinho, mas costumava voltar acompanhado de alguns colegas que moravam na mesma região, embora todos um pouco menos distante que eu. A saída se dava quase ao meio-dia, horário do almoço, e a fome já apertando. No longo caminho, meus colegas decidiram passar numa banquinha para comprar salgadinho. Me perguntaram se eu não iria comprar também, e respondi, é claro, que o dinheiro que eu tinha era para comprar pães, e que o troco devia ser devolvido integralmente à minha mãe, uma vez que ela não tinha me autorizado a gastar com outras coisas (até porque eu não havia pedido).

— Ah, mas é só um real [nota: bons tempos em que um pacote de salgadinho – maior que o atual – custava só isso!]… Sua mãe nem vai dar falta, e qualquer coisa você fala que perdeu o troco! — um dos colegas sugeriu.

Bem, eu gostava muito de salgadinho (que criança não gosta?) e obviamente queria comprar um pacote, mas até então não via possibilidade de isso acontecer. A sugestão do colega, porém, me fez enxergar que havia uma alternativa um pouco mais lógica àquilo, por mais que a ideia não me agradasse por completo. Comprei o salgadinho e o saboreei pelo caminho com os colegas, mas, como deveria ter previsto, não dei conta de devorar o pacote todo. Me despedi dos colegas que, um a um, ficavam pelo caminho. A poucas quadras de casa, guardei o salgadinho na mala e comecei a pensar em todas as coisas lógicas que poderia dizer à minha mãe para justificar a presença daquele pacote em casa.

— Foi a Vanessa [a cunhada, que não estaria em casa no fim da tarde] que me deu! Ela comprou pra Fernanda [a sobrinha], mas a Fernanda não comeu tudo. — concluí que seria algo lógico a se dizer.

Assim, eu tinha justificativas lógicas para o fato: 1) o pão havia saído mais caro; 2) o salgadinho tinha sido “presente” da Vanessa. E quando minha mãe chegou, de pronto as apresentei, embora talvez de um jeito não muito convincente. Se minha mãe acreditou ou não, não sei dizer. O fato é que comecei a me sentir terrivelmente mal depois daquilo. Me sentia péssimo, como se tivesse traído a confiança dela. Imaginava que ela sabia da verdade e que ficaria triste comigo por eu ter feito aquilo. A autotortura psicológica foi tanta que, poucas horas depois, antes de ir me deitar, contei a verdade aos prantos, me desculpando sem parar por ter gasto o dinheiro e por não ter dito a verdade. Por sorte minha mãe compreendeu e não me condenou, se limitando a me lembrar que eu poderia pedir a ela primeiro sempre que quisesse alguma coisa.

No fim das contas, no caso dos autistas, acho que mentira realmente tem perna curta. Bem curta!

Não chove chuva, não chove e pare já!

Minha pior inimiga, dona chuva

Minha pior inimiga, dona chuva

Não posso dizer que estou muito contente com as coisas no Brasil (se tivesse condições, acho que já teria me mandado daqui). Mas digo, sem sombra de dúvida, que amo a cidade em que vivo e que dificilmente a trocaria por outra (neste país). Minha quase sempre cinzenta Curitiba, nacionalmente conhecida pelo clima fechado que, teoricamente, reflete no humor de seus habitantes, é (ou devo dizer “já foi”?) um lugar razoavelmente bom de se viver, apesar dos pesares. Entretanto, Curitiba, em decorrência da sempiterna cinzentice, me ensinou a detestar algo que, em geral, as pessoas costumam amar, ignorar ou ao menos relevar.

Chuva. Ah, chuva! Que foi que eu lhe fiz para ser tão perseguido? Ao contrário do que parece, meus amigos, não estou fazendo drama. Ao final deste texto, tenho certeza, vocês terão compreendido e quem sabe até passem a concordar comigo.

Minha complexa relação com a chuva começou bem cedo. Uma situação típica: quarta-feira, tarde ensolarada, minha mãe anunciava os planos para o fim de semana que estava por vir. “Vamos pra casa da vó”; “vamos pra casa da tia”; “vamos ao Passeio Público com a tia Valéria”. Sem problema! Eu gostava de visitar os parentes e passear (e adorava parques). E com alguns dias restando até o fim de semana, conseguia me organizar. Minha mente programava todos os detalhes possíveis, montando uma sequência a ser seguida para que eu me sentisse bem e seguro: sairíamos em tal horário, pegaríamos o ônibus ‘x’, encontraríamos tal pessoa no ponto ‘y’, etc. E à medida que o dia do passeio ia se aproximando, isso começava a me gerar ansiedade e, dependendo do que fosse, certa expectativa. Era, afinal, uma quebra da rotina, para a qual, porém, eu já havia me programado, tornando tudo menos problemático, ao menos em teoria. E por isso mesmo seria bom que os planos que havia feito mentalmente funcionassem na mais perfeita ordem. Seria, não fosse por um fator extraordinário que a essa altura vocês já devem estar imaginando qual é.

Domingo de manhã – o dia do passeio enfim chegara. Eu sequer tinha dormido direito; a ansiedade me fazia acordar várias vezes durante a noite, o coração palpitando, a sensação estranha de ardência no peito, típica de quando estou ansioso, as mãos apertando nervosamente uma à outra ou a pontinha do travesseiro. Apesar disso, levantava rápido, geralmente sem um pingo de sono. Olhava pela janela. Lá fora, um céu cinzento, escuro. Sentava à mesa para tomar o café da manhã e minha mãe dizia:

— Se chover a gente não vai…

Meus olhos arregalavam e o sangue gelava nas veias. Para mim o esquema estava todo organizado e simplesmente não havia qualquer possibilidade de não acontecer – nem mesmo se o mundo estivesse acabando. Mas, óbvio, eu não poderia simplesmente executar os planos sozinho. E como já imaginam, para o meu total desespero, a chuva, a dita cuja, maléfica, destruidora de planos e perturbadora dos passeios alheios, resolvia despencar de vez. Aquilo acabava comigo, me desorganizava por completo e me deixava, literalmente, sem saber o que fazer. O resultado de tudo isso: “crise”. Às vezes mais, às vezes menos, mas geralmente crise.

Isso não aconteceu uma, duas ou três vezes. Foram várias. Tantas que até perdi as contas e não tenho como lhes dar um número preciso agora. Algumas foram mais traumáticas, chegando até a deixar marcas – como quando, irritado, esmaguei entre as mãos o guarda-chuva inútil diante da ventania da tempestade que me encharcava e acabei com um corte fundo no dedo, cuja marca nunca desapareceu. Lembro também do dia do aniversário de 70 anos do meu avô. A família toda se reuniria em uma pizzaria para comemorar. Eu já me programava para o evento há semanas. Veria meus primos, alguns dos quais – mais novos ou mais velhos, mas dificilmente da mesma idade – eram as poucas crianças com que eu tinha maior contato. A comemoração se daria num sábado à noite e, logicamente, minha ansiedade e expectativa haviam chegado a um auge na manhã daquele mesmo dia. Depois do almoço, adivinhem só. Chuva. Tudo bem, não teríamos que pegar ônibus. Iríamos com o tio Júlio, que tinha carro e havia ficado de nos buscar, precisamente às 18 horas. Em tese, a chuva não seria problema, e isso me deixava mais tranquilo. Ah se eu soubesse…

Enfim dava o horário. Embora eu desejasse, meu tio não havia chegado um pouco antes do combinado. Nem em ponto. Nem cinco minutos depois. Muito menos dez minutos depois. A ansiedade ao extremo e a quebra de expectativa começavam a me deixar incomodado. O relógio já marcava 18h30. 18h45. E nada do tio aparecer.

— Acho que ele não vai mais, por causa da chuva – minha mãe comentava inocentemente.

— NÃO!

O berro, fosse mental ou verbal, vinha acompanhado de uma corrida até o quarto, onde me jogava na cama e ficava choramingando e resmungando, me sentindo terrivelmente mal e me torturando mentalmente ao imaginar meus primos brincando e diante da perspectiva de não poder estar lá. Alguns beliscões nos braços e nas costas eram minha forma de lidar com todo o excesso de angústia que vinha daquela situação. Para me acalmar, minha mãe contornava dizendo que o meu tio estava apenas atrasado, mas que iria aparecer. Só que obviamente eu já não acreditava muito nisso. Sem falar que queria chegar no horário, não horas depois, quando todos já estivessem indo embora e não tivesse mais nada para comer. Entretanto, quase uma hora e meia depois, meu tio finalmente apareceu e, para meu alívio completo, chegamos à festa ainda em tempo, já que não havíamos sido os únicos a nos atrasar. Melhorei de pronto, quase num passe de mágica (alguns pais já devem ter visto algo assim, não é?), mas o cansaço mental depois daquilo tudo só viria mais tarde.

Eu sei, a chuva é importante. Sei que há lugares em que quase não chove, onde as pessoas imploram por uma garoa que seja. Sei que ela é necessária, etc., etc., etc. Mas depois de tudo isso (e muito mais, que não contei aqui para não ficar muito extenso), não acham que tenho pelo menos um pouquinho de motivo para detestar a chuva?

Adendo: Nessa semana tivemos o Dia da Conscientização do Autismo. Consegui negociar no trabalho um horário diferenciado de almoço para participar da ação que seria realizada aqui em Curitiba, no período da manhã. Basicamente, eu estaria disponível das 10 h às 12 h, e às 10 h em ponto deixei o escritório e me dirigi ao local do evento. No caminho, notei o céu cinzento e as nuvens escuras ao norte, se aproximando rápido. Quando estava a somente 50 metros do ponto em que jazia a barraca, lá veio ela – a chuva –, despencando com todo seu vigor. E talvez não acreditem se eu disser que ela só parou já bem próximo das 12 h, quando desmontavam a barraca e guardavam as coisas para ir embora. Se quiserem, as testemunhas podem confirmar o fato. Então, me permitem dizer agora, com todas as letras: “odeio chuva”?