A lição da figurinha (e O resgate do Sr. Garfo)

Meu amigo, Sr. Garfo

Meu amigo, Sr. Garfo

Todo mundo tem suas manias esquisitas. Hoje em dia, pelo menos, dá até para dizer que se uma pessoa não tem uma esquisitice sequer ela não pode ser considerada “normal”. Tudo bem, também detesto generalizações, mas acho que nessa há um pouco de verdade. Assim sendo, não é preciso estar no espectro do autismo (ou apresentar qualquer outro TGD – transtorno global do desenvolvimento) para fazer, pensar e/ou falar coisas que a grande maioria das pessoas costuma considerar estranhas. Mas o fato é que os não neurotípicos acabam tendo as esquisitices muito mais expostas do que os neurotípicos que também têm lá as suas.

Como já estão quase carecas de saber (espero que não literalmente), cresci me achando esquisito, especialmente quando parava para observar o comportamento dos meus colegas de escola e dos meus familiares. Com certeza muita gente deve ter pensado o mesmo sobre mim, mas não necessariamente dito, ao menos não na minha frente. Em todo caso, eu sabia que tinha hábitos e pensamentos “estranhos”, embora, lá no fundo, me parecessem coisas lógicas e normais; eram apenas diferentes. E minha relação de amor e ódio com os objetos (continue lendo e vai entender o que quero dizer com isso) foi sem dúvida uma das minhas “excentricidades” mais marcantes.

Vamos colocar desse jeito: para mim, os objetos, tais como lápis, cadeiras, talheres, quadros, etc., eram tão vivos quanto cães e gatos, e algumas vezes tão racionais quanto meus pais e meus colegas. Eu costumava atribuir sentimentos (e pensamentos) a tudo que estava ao meu redor, fossem pessoas ou coisas. Fazia sentido; se algo existia, se podia ser tocado, era porque estava vivo. E se estava vivo podia sentir tudo o que eu sentia: dor, alegria, tristeza, calma, frustração. Não era à toa, aliás, que desenhos animados como A bela e a fera, por exemplo, em que objetos ditos inanimados ganhavam vida e falavam e se comportavam como “humanos” me chamavam a atenção e talvez mesmo reforçassem minha forma de pensar e de ver as coisas. E embora eu soubesse que minha xícara nunca falaria comigo, tinha certeza que ela podia “sentir”.

Era por esse motivo que eu não gostava de perder as coisas ou de jogá-las fora. Quando perdia algo lamentava por dias, semanas até, dependendo do que fosse. Quando minha mãe jogava minhas “antiguidades” no lixo ela costumava ouvir meus protestos e resmungos por um bom tempo. Doar meus brinquedos velhos? Nem pensar! Eles sentiriam falta de mim e ficariam tristes. Sem falar que as outras crianças, bobas que eram, não iriam saber usá-los e acabariam os estragando, os machucando. Eu não poderia, jamais, permitir que isso acontecesse com os pobres coitados (apesar de algumas vezes ter acontecido, para meu total desespero).

Alguns objetos me eram extremamente valiosos. O garfo com o cabo levemente entortado, feito especialmente para um garotinho canhoto como eu, e que tenho já não me lembro desde quando (mas certamente desde bem pequeno), foi um dos que me acompanharam por anos. Sim, o tenho até hoje, e ainda faço questão de utilizá-lo nas refeições feitas em casa. Lembro-me de quase tê-lo perdido uma vez, num passeio de escola com a turma da 4ª série. Cada aluno devia levar seus talheres para o almoço a ser feito no lugar, uma chácara cujo local não mais me recordo, e eu, óbvio, havia carregado comigo o amigo de todos os almoços e jantas. Depois do almoço, na pressa, larguei o coitado sobre a mesa rústica de madeira, em cima do pratinho branco de plástico com o resto da comida que eu, por sinal, não tinha apreciado muito. Me lembrei dele algum tempo depois e vasculhei a mochila que levava nas costas. Provavelmente fiquei branco como uma folha de papel quando não o encontrei. Mas felizmente ainda estava lá, sobre a mesa, quando voltei para buscá-lo. Alívio – para mim e para o garfo.

Outra situação marcante envolvendo um objeto aconteceu um pouco mais tarde, aos meus 11, quase 12 anos de idade. Na época o chiclete Ping Pong ainda fazia sucesso com suas coleções de figurinhas. Naquele ano, a coleção trazia figurinhas com fotos de animais em extinção; abaixo da foto o nome popular do bicho e embaixo deste, em itálico, o nome científico da referida espécie – daí meu interesse! Eu não havia conseguido o álbum, mas colava as figurinhas em um caderno improvisado (ainda o tenho, claro). Costumava ir com minha mãe à casa dos meus avós quase todos os fins de semana e para chegar lá andávamos várias quadras depois de descer no terminal de ônibus. E era bem comum encontrar embalagens de chiclete vazias jogadas na beira da calçada. Com elas, em geral, estava a figurinha, algo que as pessoas pareciam dispensar. Melhor para mim, pois era assim que conseguia aumentar minhas coleções, já que não podia comprar chicletes todos os dias.

Naquele dia, eu caminhava ao lado da minha mãe pela arborizada Luiz Parigot de Souza, ainda a algumas quadras da casa dos avós. Apesar da penumbra que se formava graças às árvores e ao céu cinzento, avistei uma embalagem azul de Ping Pong virada para baixo, caída no meio-fio em meio a um amontoado de folhas secas. Corri até ela, empolgado; faltavam poucas, bem poucas figurinhas para completar a coleção. Me abaixei e a peguei, sentindo o plástico da figurinha nos meus dedos. Virei a embalagem, o peito palpitando, e tirei a figurinha de dentro dela. Decepção. Já tinha uma daquela. Era repetida, como costumava chamar. Levantei, bufando, joguei figurinha e embalagem no asfalto e as pisoteei, gritando com raiva. Tinha sido feito de bobo, e detestava isso.

Parei, atendendo enfim ao pedido de minha mãe, e seguimos nosso caminho. Então comecei a pensar. A figurinha não tinha culpa por ser repetida. O fato de eu já ter uma igual não fazia diferença, pois ela só estava sendo ela mesma e não podia mudar só porque eu gostaria que ela fosse outra. Eu não devia tê-la pisoteado daquele jeito. Tinha sido injusto e agressivo com ela.

Acreditem, esse pensamento, e o consequente remorso, me corroeu por semanas, meses até, me levando aos prantos várias vezes, arrependido que estava da minha atitude. Tão forte que no caminho de volta – e nas semanas seguintes – procurei pela figurinha, tendo a firme convicção de erguê-la do chão e levá-la para casa a fim de pedir desculpas. Mas não a vi mais. Entretanto, o arrependimento ficou. E no fim das contas, tendo restado ferida ou não, a figurinha me fez começar a pensar duas vezes antes de agir daquele modo – com algo ou com alguém.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s