Pela abolição da dobradura

Professoras de Artes e suas dobraduras...

Professoras de Artes e suas dobraduras…

No post passado entrei, brevemente, no assunto “escola” e falei sobre situações que me aconteceram devido à minha coordenação (ou, melhor, à falta dela). Mas os cadarços dos meus sapatos não foram meus únicos motivos de pavor. Havia vários outros, é verdade, mas, ainda em relação às minhas mãos descoordenadas, uma disciplina em especial me causou muitos calafrios na espinha (literalmente): Educação Artística, posteriormente chamada apenas de Artes.

Sempre gostei de desenhar e pintar. Do meu jeito, é claro, e apesar dos dedos doloridos depois de segurar os lápis apertando-os exageradamente (ou sem apertar muito) por um bocado de tempo. Meus desenhos, não preciso dizer, se relacionavam aos meus interesses; dinossauros, letras (eu imaginava as letras do alfabeto como personagens e criava histórias em quadrinhos com elas), mapas – copiava, quase precisamente, mapas de continentes, países, estados e bairros da cidade. Algumas vezes criava os meus próprios, inventando cidades que continham tudo aquilo que me agradava. Os nomes das ruas, é claro, também tinham de ser do meu agrado (a propósito, ainda tenho cadernos com esses mapas, e assim que tiver meu scanner de volta vou digitalizá-los e postá-los aqui no blog). Por esse motivo, eu com certeza teria sido muito mais feliz nas aulas de Artes se elas tivessem se resumido a desenho e pintura. Como sabem ou imaginam, elas iam além.

Tesouras. Cola. Cartolina. Réguas. No começo eu não sabia, mas um dia passaria a detestar essas coisas. Minha relação com elas nunca foi boa. Era desastrado com os tubos de cola, e geralmente espalhava mais do que devia, sujando os dedos todos e transformando meus trabalhos numa verdadeira papa. As tesouras, então… Nunca foram minhas amigas. Impossível conseguir recortar os pontilhados numa folha de sulfite. A tesoura mastigava, mastigava, mastigava o papel, amassando ele todo, e nada de fazer um bendito corte. Estava cega, eu pensava comigo, e pegava outra. Mas o resultado não era diferente.

— É o jeito como você segura! – minha mãe me dizia algumas vezes.

“E tem jeito certo de segurar?”, eu ponderava. Até hoje não sei. Por um tempo culpei o fato de ser canhoto e de as tesouras terem sido feitas para destros (se é verdade não sei), mas concluí que não é esse o problema. Independente disso, foram pouquíssimas as tesouras que realmente me foram úteis nesses 26 anos de vida. Ainda guardo uma das “boas” comigo para qualquer eventualidade.

No entanto, minhas piores experiências nas aulas de Artes não envolveram cola, réguas e tesouras, mas sim simples folhas de sulfite que, para minha tristeza, não seriam usadas para desenhar ou pintar. Meus olhos se fixavam na professora quando eu a via com um maço de sulfite nas mãos. Ela o colocava sobre sua mesa, olhava para os alunos e dizia com entusiasmo:

— Hoje vamos ter dobradura!

A primeira experiência com aquela atividade já havia sido suficiente para que eu passasse a ter medo dela. E quando a professora anunciava que faríamos dobraduras, eu geralmente começava a tremer, sofrendo por antecipação. Já sabia como iria ser. A mestra passava ao lado das carteiras para distribuir as folhas de papel, uma para cada aluno. Eu pegava a minha e aguardava, apertando a pontinha com força (faço isso até hoje; preciso apertar alguma coisa quando estou nervoso). Não podia desaparecer? Pedir para fazer outra coisa? Infelizmente não.

A professora voltava para a frente da sala e dava início à atividade, que consistia basicamente em: 1) a professora definia o que ia ser feito (cisne, barco, avião, rato, etc.); 2) a professora fazia lentamente uma dobra na folha que tinha nas mãos; 3) os alunos tinham de fazer em suas folhas o mesmo que a professora fizera na dela; 4) a professora continuava o processo, passo a passo, explicando e dando tempo para que os alunos copiassem o processo. Simples, não é? Talvez, para quem não tem problemas com a coordenação.

O fato era que eu nunca conseguia fazer as ditas dobras no papel. A primeira, às vezes, até ia; depois desandava. Não conseguia copiar o que a professora fazia, por mais que ela explicasse três ou quatro vezes. Não era o único a sentir dificuldade, claro, mas com alguma insistência os outros, em geral, conseguiam concluir a atividade satisfatoriamente. Eu não. Eu tentava. Tentava. Tentava. O papel já todo amassado dificultava ainda mais a tarefa. O tempo ia passando. Os colegas terminavam, exibindo, sorridentes, seus origamis para os outros e para a professora. Eu mal havia conseguido acompanhar o início, e, com uma folha disforme nas mãos, já não lembrava os passos seguintes. Não podia pedir ajuda, nem mesmo à professora, porque todos iam ver que eu não tinha terminado. Que eu não conseguia.

Era a última aula do dia. Cinco minutos para o final. Os colegas já haviam mostrado suas dobraduras prontas para a professora e agora conversavam, animados com a fuga iminente (assim, por sorte, não prestavam muita atenção em mim). Eu não conseguiria acabar. Nunca, muito menos em cinco minutos. Suava frio. O sangue gelava. Os dedos tremiam e, molhados, empapavam o papel. Eu sentia medo, muito medo, como se visse um fantasma na minha frente. O que ia acontecer? Ia ter que ficar ali até terminar? Ficar sozinho, eu e a professora, enquanto os outros iam embora, me viam e caçoavam? E se eu não terminasse nunca? E se eu mostrasse aquele bolo de papel à professora e ela me repreendesse, pensando que eu não havia feito a atividade por preguiça? E se eu não saísse no horário correto e minha mãe, cansada de esperar, fosse embora e me deixasse ali? E se…? E se…?

O sinal tocava. As crianças levantavam apressadas e corriam porta afora. Algumas levavam os origamis consigo, outras os largavam sobre a mesa ou os derrubavam no chão. A professora arrumava suas coisas, sem mais dar atenção. E eu, ao menos racional, saía rápido como um raio no meio dos outros, antes que ela se lembrasse de que eu não havia mostrado a dobradura pronta (e assim descobri minha incrível habilidade de passar despercebido).

Caminhava para casa quieto, aparentemente tranquilo. Por dentro, eu estava desabando. Assim, quando chegava, me deixava desandar. Por vezes chorava, por vezes me batia (escondido) e, com frequência, passava o restante do dia mal-humorado e me sentindo péssimo, todo desorganizado. Tudo por causa das ditas dobraduras, que por vários anos aterrorizaram minha vida.

 

Depois disso tudo, acho que não preciso explicar o título do texto, não é mesmo?

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3 pensamentos sobre “Pela abolição da dobradura

  1. Oi, Jacob,
    Me solidarizei com você rsrsrs… Eu sou um verdadeiro terror em qualquer coisa que envolva tesoura, cola ou qualquer habilidade manual (principalmente motricidade fina)!!!!! E, até onde eu sei, sou uma mãe neurotípica (?). Dia das mães na escola da minha filha é um sufoco por que, vira e mexe, lá estão elas aquelas armas fatais que vão me desmoralizar!!!! kkkkkkkk Minha filha de 9 anos, Luana, foi diagnosticada TID aos 3 e até tenta me ajudar pro mico ser um pouco menor, quando eu concluo a minha obra ela solta um: _É uma arte surrealista, mamãe!!!! kkkkkkkkkkkkkkkkkkk Ninguém entende mesmo… Mas, verdade seja dita, eu fico nervosa e me envergonho um pouco dessa minha “pouca habilidade” manual e invento algumas desculpas, como: _Ah, eu não gosto disso! ou então: _É pouca prática… o.O. Gostei da sua história (me identifiquei total) e do seu blog, e vou acompanhar daqui pra frente. Pra mim vc é um vencedor e sua sensibilidade e capacidade de traduzir seus sentimentos em palavras me deixaram orgulhosa (não tem vergonha alheia? aqui pra mim coube o orgulho alheio). Parabéns, continue assim!!!! Abraços fraternos,
    Manuela

    • Oi, Manuela!
      Obrigado pela visita! Que bom que gostou do blog e das histórias (e que se identificou com elas). E é muito bom conhecer alguém que também acha complicado enfrentar esses “monstros” chamados dobraduras e coisas afins! rsrs
      Muito bom ler sobre você e sua filha. E arte surrealista é uma boa! rsrsrs Abraços às duas! Obrigado pelas palavras! 🙂

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