Cadarços desamarrados

Cadarços...

Cadarços…

Sempre tive problemas relacionados à coordenação motora fina. Isso foi algo que me afligiu durante toda a infância e boa parte da adolescência, pelo simples fato de não conseguir realizar determinadas atividades, não importava o quanto tentasse. A escola, logicamente, foi o ambiente em que mais percebi isso. Quando via as outras crianças fazendo tão facilmente coisas que para mim pareciam – e eram – tão complicadas, eu era tomado pela sensação de ser um garoto estranho, ou até mesmo “burro” ou “incapaz” (sim, eu pensava em todas essas possibilidades).

Uma dessas coisas era amarrar os cadarços. Essa tarefa corriqueira pode ser extremamente simples para a grande maioria das pessoas, mas não era para mim (e, admito, ainda não é). Minha mãe havia tentado me ensinar, é verdade, mas não lembro o quanto ela chegou a insistir. De qualquer modo, enrolar aqueles fios, fazer nós e amarrá-los era algo muito complexo. Assim, o tempo foi passando e, ao chegar a uma idade em que as crianças geralmente já conseguem fazer isso sem muitos problemas, eu ainda não havia aprendido.

Lembro como se fosse ontem. Minha mãe costumava amarrar meus cadarços antes que eu saísse para ir à escola. Quando ela teve que voltar a trabalhar, deixava os tênis já amarrados e tudo que eu tinha que fazer era enfiar os pés dentro deles e pronto. O problema era que os ditos cujos nunca permaneciam amarrados o dia todo – quando eu olhava para baixo ou sentia algo balançando nos pés, lá estavam eles, os cadarços, serpenteando de um lado para o outro. Tudo bem, confesso, vez ou outra era eu mesmo o culpado. Minha falta de jeito às vezes me fazia pisar na pontinha do cordão quando ia me levantar da cadeira ou mesmo enquanto caminhava (cansei de contar quantas vezes me disseram que eu tinha os pés “tortos” graças ao meu jeito esquisitão de andar), e aí pronto: cadarços desamarrados.

Era um dos terrores da minha vida. Enquanto assistia à aula de matemática, olhava para baixo e sentia o sangue gelar: os cadarços soltos, pendendo no chão. “Ah não…”, era o que me ocorria, enquanto torcia (e me retorcia) mentalmente para que ninguém olhasse para os meus pés. Mas alguém sempre via, e eu só ouvia, para piorar diante de várias testemunhas:

– Teu tênis tá desamarrado!

Felizmente nunca fui expressivo e poucas vezes demonstrei meus sentimentos na expressão do rosto (ou assim imagino), mas o que eu sentia, naquele instante, era medo. Eu talvez conhecesse pouco das convenções sociais, mas de uma coisa eu tinha certeza: não queria me tornar o centro das atenções, muito menos por um motivo como aquele, que me faria ser caçoado pela turma toda. Por isso mesmo, eu jamais poderia admitir que não sabia amarrar os cadarços (a maior parte dessas situações aconteceu entre meus 10 e 12 anos de idade). Por outro lado, eu não podia, lógico, amarrá-los, nem mesmo fingir que o fazia, pois ficaria claro que eu não conseguia. Para ajudar ainda mais, as professoras algumas vezes ouviam (porque eu me sentava nas primeiras carteiras, sempre), e reforçavam:

– Amarre, senão vai tropeçar e se machucar!

Aí, geralmente, só me restava dar a desculpa mais esfarrapada que eu conseguia arranjar.

– É… eu… depois eu amarro… – dizia, eventualmente tropeçando nas palavras.

Algumas vezes funcionava, e todos se davam por satisfeitos com isso ou pelo menos encontravam algo melhor com o que se ocupar. Mas para o meu desgosto, às vezes havia insistência. E dada a minha efusiva recusa, alguém acabava berrando:

– Ele ainda não sabe amarrar o sapato!

 

A despeito desses momentos caóticos, tenho algumas lembranças melhores relacionadas aos meus benditos cadarços desamarrados. São também dessa época, mas que envolveram pessoas que, de certo modo, fizeram algo diferente. Lembro de um colega da 4ª série (hoje 5º ano) que, em vez de insistir ou me atormentar ou, ainda, me zombar por andar pela escola com os cadarços desamarrados (por que isso acontecia tanto nos recreios??), se ofereceu para amarrá-los para mim; não bastasse amarrá-los, ainda foi paciente para tentar me ensinar a refinada “técnica” (embora isso infelizmente não tenha funcionado). No ano seguinte, na 5ª série, uma amiga e colega de turma que caminhava comigo para a escola – que era longe, distante mais de 10 quadras da minha casa – fez a mesma coisa e, em certa ocasião, ciente de que eu não conseguia fazê-lo, amarrou os pobres cadarços que até então se arrastavam pelo chão.

É claro que me senti incomodado e até mesmo envergonhado nessas situações. Mas hoje, me lembrando desses dois colegas (e amigos, por que não dizer), vejo como foram especiais em não terem agido como a grande maioria. Eles não se limitaram a perceber o fato; não reagiram falando, apontando ou rindo. Eles agiram, fazendo o que podiam para “desatar os nós” (ou, nesse caso, atá-los). Fizeram a diferença. Com um gesto simples, jamais tão complicado quanto o ato de amarrar cadarços.

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5 pensamentos sobre “Cadarços desamarrados

  1. A escola da família não tem a instrução de preparar os filhos para o contato social. A escola da educação escolar não tem o controle do preparo psicológico de seus alunos para lidarem com o diferente. Mesmo na aprendizagem a escola cumpre seu papel com uns oitenta por cento de seu público, os demais são motivos de chacota ou então de se sentirem burros. Uma lástima o despreparo educacional nestes tempos de tanta tecnologia e facilidades. infelizmente somos criados e educados para nos sentirmos “em série” “iguais” e não somos alertados para entendermos “as diferenças”.

    • É verdade, Isa, infelizmente devo concordar. No campo da pedagogia existe muita teoria, muito discurso bonito, mas na prática mesmo a realidade é bem diferente. Tudo porque, na maioria dos casos, os próprios educadores ainda não internalizaram a ideia de compreender e respeitar o diferente.

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