Dinossauros que ensinam a ler

O triceratope da leitura

O triceratope da leitura

Algo bastante característico das pessoas no espectro do autismo são as fixações por temas e/ou objetos específicos (isso, claro, não é novidade). Comigo não foi diferente – e ainda não é. O interesse por determinados assuntos é algo que não se limita à infância, mas que se estende, inclusive, para a vida adulta. E isso sem dúvida pode servir como um catalisador para o desenvolvimento da pessoa com autismo. Com certeza não foi à toa que me formei em uma área relacionada a um dos meus interesses de infância (o que acabou me abrindo a mente para coisas às quais antes não dava tanta atenção).

Posso dizer que tive várias dessas fixações desde bem pequeno. Por sinal, o que me motivou a aprender a ler antes mesmo de começar a frequentar a escola foi uma delas: dinossauros (com certeza uma das paixões de tantos outros autistas por aí). Lembro que meu pai costumava ler para mim alguns livrinhos sobre dinossauros. Dentre eles, as histórias em quadrinhos dos Chipsauros (quem for da minha época deve se recordar). Adorava ouvir as histórias e acompanhar as figuras, e pedia que meu pai as repetisse incansavelmente quantas vezes pudesse (ele geralmente perdia a paciência depois da terceira leitura). Como ele vivia viajando, trabalhando como uma espécie de garçom itinerante, e minha mãe se ocupava com as tarefas domésticas, eu nem sempre tinha quem lesse os gibis e livros para mim. Foi isso que me forçou a querer fazer as leituras por mim mesmo. Sinceramente, não me recordo de como foi o processo; mas antes de chegar à escola eu já estava lendo meus livros e gibis dos Chipsauros por conta própria.

Outras de minhas grandes paixões foram (e são!): astronomia, idiomas, linhas de ônibus da cidade de Curitiba, mapas, bandeiras de países e taxonomia, ciência que descrevia, identificava e classificava os organismos vivos (por exemplo, em espécie, gênero, filo, etc.). Por sinal, coisas classificáveis, em geral, sempre me chamaram a atenção. E se alguém um dia revirar meus cadernos antigos (os que restaram, ao menos, faço questão de guardar comigo, apesar dos protestos de minha mãe) vai encontrar dezenas de tabelas com os mais variados dados, desde a lista das 88 constelações e suas principais estrelas a outras de espécies de animais e plantas, seus nomes científicos e sua classificação completa conforme a então taxonomia.

Boa parte da minha infância e pré-adolescência foi vivida deste modo: se ia para a escola de manhã, passava as tardes vasculhando livros e enciclopédias e anotando tudo que pudesse em meus cadernos sobre o assunto pesquisado; se ia à tarde, parte das manhãs e noites eram usadas para este propósito. Nada mais me interessava nesses momentos, justamente porque sentia uma satisfação enorme em escarafunchar, esmiuçar e se possível esgotar o que houvesse sobre meus amados interesses. Parar para tomar banho? De jeito nenhum! Interromper o estudo para arrumar a bagunça que havia ficado no quarto? Nem pensar! Pior ainda se alguém resolvesse puxar assunto comigo enquanto eu estivesse envolvido com minhas leituras e escritos. Isso com certeza me deixaria irritado! Não era por mal; eu simplesmente precisava manter meu foco de modo exclusivo ao que eu estava fazendo. Se algo ou alguém me fazia desviar dele por algum motivo, eu acabava me perdendo e saindo do que eu já havia me “programado” previamente para fazer (o que, de certa forma, tem a ver com a questão da rotina) – e a continuação, posteriormente, já não seria mais a mesma coisa.

É claro que isso era muito bom para mim, mas também teve seu lado ruim. Como mencionei no post passado, na maior parte do tempo preferi minhas leituras a sair para brincar com os colegas da escola ou com os vizinhos (isso também porque geralmente eu considerava os demais garotos da minha idade “bobos” demais). Assim, minhas relações sociais nunca foram muitas, nem mesmo foram desenvolvidas o tanto que deveriam. Mas isto é coisa para um próximo post; o tema das fixações também deve voltar a aparecer em posts futuros. Por ora, bom fim de semana a todos!

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