O fantasma sólido

Ghost

A ideia de começar este blog surgiu na verdade de outra ideia, bem mais antiga, deixada de lado e retomada algumas vezes durante estes 26 anos, 10 meses, 11 dias e 2 horas de vida. Já algumas vezes, desde os meus 11 anos de idade, iniciei o projeto da escrita de uma autobiografia. Não, talvez não necessariamente algo assim tão ambicioso, já que não me considero alguém importante ou conhecido o suficiente para que as pessoas se interessem em ler sobre minha vida. Tratava-se, na realidade, de escrever um relato dos fatos que presenciei, ao menos desde que passei a observá-los conscientemente. Um relato não dirigido a outrem, mas a mim mesmo, para que eu jamais esquecesse. Infelizmente, por uma infinidade de motivos, jamais cheguei a concluir o projeto. Há pouco mais de um mês, entretanto, uma sugestão feita por minha psicóloga reacendeu a ideia. E embora eu ainda pretenda escrever e concluir algo que possa, quem sabe, servir como o conteúdo de um livro, vi na criação deste blog uma maneira diferente de recomeçar.

Não tenho intenção de me estender demais neste primeiro post, mas creio que devo falar um pouco sobre mim. Sou Jacob Galon; este não é o nome com que fui registrado, mas é o nome que eu escolhi e que remonta às minhas origens (Galon, por exemplo, é o sobrenome da minha família materna, com a qual tive maior convivência). Sou licenciado em Letras – Inglês pela Universidade Federal do Paraná, mas não leciono. Profissionalmente me dedico à edição e revisão de textos desde que me formei, tendo já somado uma experiência de 3 anos, 5 meses e 1 dia. Idiomas, aliás, em todos os seus aspectos, são um dos meus interesses.

Interesses. Os tenho desde a infância, como qualquer outra pessoa. A diferença é que, ainda criança, eu me dedicava a me aprofundar neles o máximo que pudesse em vez de sair por aí buscando amizades e conversas (e talvez ainda não seja muito diferente hoje em dia). Cresci assim, alheio a muitas coisas, vendo o mundo passar. Um mundo que, para mim, parecia feito de vapor, cheio de pessoas que eu não conseguia tocar. Eu ali, fantasma sólido, invisível, tentando entender aquele mundo estranho feito de fumaça. Não posso dizer que o tenha compreendido, mesmo após tantos anos. E embora, ao menos, eu hoje me compreenda, nem sempre foi assim. Por muito tempo, fui levado a acreditar que era o esquisito, o desajustado. Por que eu não conseguia ser como as pessoas daquele mundo nebuloso?

Foi somente depois de completar ¼ de século que descobri, quase sem querer, a Síndrome de Asperger. Nunca tinha ouvido falar sobre ela, apesar de ter lido uma coisa ou outra sobre o autismo (e não ter assimilado muita coisa, já que não me era um assunto de interesse). Lendo sobre as características comuns da síndrome, notei que várias delas retratavam coisas que eu sentia, fazia ou mesmo pensava. Curioso, passei a procurar mais informações sobre o assunto, pesquisando na internet e lendo tudo que podia. Encontrei um grupo grande em uma rede social, organizado por uma senhora britânica e frequentado por centenas, senão milhares de pessoas que se encontram no espectro do autismo, seus pais, familiares, educadores e amigos. Observando seus relatos diários no grupo, encontrei ainda mais similaridades com o que eu havia vivido na infância e na adolescência (e também como adulto). Dali em diante, não tive mais dúvidas. Eu também estava no espectro. Sempre havia estado.

A certeza, é claro, só foi confirmada por especialistas, alguns meses mais tarde – como muitos outros, penei para encontrar as pessoas certas. O diagnóstico então, que me serve mais como um respaldo (porque a grande maioria das pessoas com que convivo tenderia a não dar crédito se eu lhes falasse sobre isso, graças à visão genérica e midiatizada que têm sobre o autismo), só veio há não mais que 5 meses.

Assim, neste blog, pretendo falar um pouco sobre o que vivi e sobre a maneira como via/vejo e entendia/entendo as coisas. Espero que sirva de apoio, de algum modo, para pais, amigos e educadores interessados na inclusão verdadeira e eficaz, além de, principalmente, para os próprios autistas. Se assim for, terei cumprido meu objetivo. A todos os que vierem a passar por aqui, um ótimo fim de semana e um excelente 2013!

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2 pensamentos sobre “O fantasma sólido

  1. Ooi, tudo bom? Fiquei feliz por encontrar seu blog!
    Bem, estou namorando um moço há pouco mais de um ano… Eu o amo bastante, mas temos dificuldades, aí comecei a procurar respostas. E acho que meu namorado tem a Síndrome de Asperger… Mas não sei como falar sobre isso com ele…
    Você já namorou / namora? Porque gostaria de saber quais são suas dificuldades em um relacionamento e o que você espera da moça…
    Muito obrigada!

    • Olá, Rita! Que bom que o blog pode ser algo legal pra você. Eu imagino, existem muitas pessoas que têm Síndrome de Asperger e não sabem, tudo pela falta de informação que sempre houve (e que só atualmente está começando a mudar). Eu nunca namorei, justamente pela dificuldade que tenho de me aproximar das pessoas. Mas posso dizer que o que espero da moça com quem um dia eu venha a namorar é que seja uma pessoa compreensiva, que entenda algumas das minhas dificuldades, mas que ao mesmo tempo esteja ao meu lado pra que eu possa superá-las. E penso que o seu namorado tem sorte, pois você parece realmente se preocupar bastante com ele, tanto que está pesquisando sobre. De qualquer modo, no que eu puder ajudar, estarei por aqui. Obrigado pela visita! 🙂

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